cansada de estar cansada
cansada dos sentimentos avoados nas cinco dimensões dos sonhos apocalípticos da vista vesga
cansada de sentir tanta coisa inominável
cansada de respirar um pouco mais profundo e encontrar uma ferida velha me olhando com olhos de gambá cansada de achar que a chuva é sinal expresso dos índios me dizendo para não sair de casa mas Maria disse sim preciso dizer sim não posso ficar pra sempre escondida dentro da caverna
cansada de fazer planos para descobrir um dia depois que planos são estratégias de gente pagã
cansada de sentir calor frio calafrio arrepio náusea e dor de barriga
cansada de ouvir música e acreditar na premonição óbvia de todas as letras de ler um livro e jurar em cima de cada palavra de escrever um texto e ter fé cega que as minhas próprias palavras são um oráculo do futuro que vai chegar daqui a três minutos mas não chega
estou me arrastando feito lesma pelas ruas de sempre do mesmo bairro onde moro há vinte e seis anos estou cansada de olhar para a cara do bairro cansada de guardar segredos escondidos pelos cantos porque não posso dizer a verdade de uma verdade que sonhei prefiro carregar a sacola pesada de sonhos secretos infundados
a dizer apenas desculpa foi engano
cansada de ver escombros paredes sendo demolidas construídas pintadas cansada de não entender o mistério do tempo cansada de achar mais um parente para pedir perdão e seguir a vida
se estou viva é por obra do divino estou entupida de qualquer obra e o divino me perdoe também queria só uma gripe simples agora para me preocupar
cansada de fazer coisas que de tão surreais não mereciam ser descritas mas ainda assim as descrevo
com manobras de pulso e linguagem emprestada das marés
para dizer que sou poeta e vejo o que ninguém mais vê
mentira
sou doida tão doida que coloco em risco minha vida todo santo dia quando sumariamente desprezo a realidade porque ela simplesmente não me interessa cansada de tropeçar em pedregulhos que brotam do solo do asfalto por estar com a cabeça constantemente voltada ao céu cansada de me alimentar de palavras e sentir fraqueza por falta de proteína no corpo
cansada de analisar analisar até o que não é analisável é apenas fato fruto daquela realidade que me devora enquanto finjo que ela não existe
cansada dos anjos santos demônios toda essa gente que perturba a cabeça de gente doida como eu
cansada dos mestres gurus padres gente espiritualizada demais me deixa exausta
cansada da sutileza delicadeza entrelinhas indiretas energias que se danem estou cansada de tirar catarro secar o cabelo passar creme creme creme não há dinheiro no mundo que sustente a necessidade imoral de tanto creme
estou cansada de passar tempo em excesso pensando na morte da bezerra nem depois de morta deixo a pobre descansar cansada de tentar achar a resposta o caminho o sentido a tradução e o sinônimo cansada de estar atenta alerta vigilante desperta
quero uma frieirinha no pé uma crise de espirros um pouco de caspa só isso
cansada de me conectar com algo maior sublime perfeito sobrenatural que não sei onde está nunca vi
estou enlouquecendo de cansaço de amar o quanto amo todas as coisas que não são visíveis
cansada das frequências todas coisa chata é frequência preciso descansar e a frequência me assombra incansavelmente cansada de esperar a promessa o processo a entrega a rendição o milagre o novo a pessoa nova que não vou ser pois doida demais para qualquer coisa que envolva ir no supermercado comprar comida colocar roupa no varal retirar o lixo limpar a casa
cansada do espelho objeto do espelho outro do reflexo trincado cansada do bichinho ardiloso chamado celular grudado na minha mão carcomendo a humanidade que ainda resta
cansada cansada cansada
inquestionavelmente cansada de respirar meditar rezar desculpa deus se o seu propósito era outro
sou fraca pecadora desajustada das idéias estou cansada mas tão cansada entreguei a maçã do rosto a polpa do lábio entreguei tudo nas mãos da minha mãe você nasceu cansada ela vai me dizer e vou concordar mas ela vai dar um jeito porque ela sempre dá
vou escrever poesia no blog amo poesia