sexta-feira, 20 de maio de 2022

Uma Carta De Amor Para Todos Os Escritores




Queridos escritores,

De vez em sempre me assumo pensando se vocês, especialistas em gestão de palavras, são seres de muita sorte ou de muito azar. 

É possível curar com palavras?

Nunca consegui chegar numa resposta. Sigo com a dúvida e me parece que ela será sempre o ingrediente misterioso. Ou teremos um manual de respostas apropriadas, histórias ricas, poemas profundos de amor, ou uma prescrição médica, impreterivelmente. 

Para qualquer que seja o caso: palavras, meu amor.

Coleciono seus escritos, meus queridos escritores, deveria ser mais organizada e manter todas as frases, textos, poemas, dos mais preciosos que li, num altar imaculado, mas nunca consegui, sou fruto do caos, e o que faço quando me deparo com a palavra certa é levar a mão de encontro ao peito e cavar um suspiro profundo, confesso, por vezes, uma lágrima me escapa também.

Como conseguem fazer isso com as pessoas? Como conseguem dar voz ao sentimento do mundo? Ao invés de arte, a escrita deveria ser considerada um crime. Não se pode colocar palavra na boca dos outros, não é mesmo?

Mas a vocês a permissão foi concedida, foram absolvidos...

...

Se tenho um amigo escritor, ainda que na estante, não me sinto sozinha. Não foram poucas as vezes em que cheguei em casa depois de um dia difícil e me socorri em suas palavras deliberadamente. Foram infinitos os casos que parafraseei, famosos e anônimos, na tentativa de botar emoção numa história que naufragava.


Em todas as situações estranhas nas quais me meti, principalmente naquelas onde não sabia o que dizer, procurei por você, meu escritor dono de todas as respostas, em forma de livros, revistas, jornais, bulas, frases soltas também, para conversar comigo. "O Incrível Mar De Palavras”, ou "As Ondas Que Quebram Em Textos Mágicos”, poderiam ser títulos que eu certamente procuraria para quebrar a muralha do meu próprio silêncio.

...

O cheiro de mofo que exala de suas palavras antigas me seduz e embriaga fortemente. É quando me percebo viciada e rendida, entregue plenamente ao que me possa acontecer depois: uma cartela de antialérgicos e um coração acelerado, pelo mofo sim, mas sobretudo pelo efeito, muitas vezes alucinógeno, de suas palavras.

Ouvir conversa alheia é algo que tenho certa prática, de tanto procurar pela palavra perdida acabei por adquirir esperteza. Ouvir conversas de almas escritoras que colocam vírgulas, usam palavras de viés, pausam longamente digerindo cada pingo, acento e travessão, é algo que já perdi o controle faz tempo: leva meu coração. Por contrabando ainda aprendi história, filosofia, arte, já viajei para vários lugares e vivo em estado de alerta ansiando por cada verso novo.

Que assim seja.

Sigo colada em seus passos, escritores do bem, usufruindo da graça de poder tê-los por perto.

Um mar de palavras, ah, ele não seria suficiente para dizer como  amo vocês, mas ainda assim espero que consigam imaginar. Eu realmente espero. 

Realmente amo.



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