quarta-feira, 8 de junho de 2022

Depois de Tudo Ela Fugiu

Sentada no banco da praça 

Inebriada pelo domingo na Barra
Vi uma bruxa

Na casa dos seus sessenta anos - suponho

Trajava um sobretudo verde musgo antigo
cheirando a naftalina

Sandálias de plástico azul tiffany
com meias surradas

E um chapéu marrom de abas capengas
enfeitado de penas

Não foi pelas suas vestes
Tampouco pelo seu cabelo comprido
Ou pela lata de cerveja barata
A revelação de sua cidadania

Não foi

Ela é bruxa. Eu sei que ela é

Havia uma aura de sabedoria ao seu redor e adiante 
Um desdém cozido no fígado e servido no olhar
Uma apatia ornamental perante os eufóricos

Essa mulher bruxa certamente não tem vida fácil 
Sua feição dizia pranto

Mas ela sabe o que fazer com o difícil
Elas sabem
Não havia luz elétrica
Era tudo preto breu
Somente as bruxas
Sapeavam na escuridão


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Este poema foi escrito no inverno de 2021. 

A cena descrita no poema é exatamente o que vi na praça ao lado da praia da Barra da Lagoa, naquele domingo de tarde antes do jogo de futebol começar, e a gente sair rumo ao primeiro boteco onde ouvi a lenda sobre a magia das bruxas que ronda toda a Ilha de Florianópolis, contada por um manesinho local, e pude então concluir o poema.