Sentada no banco da praça
Inebriada pelo domingo na Barra
Vi uma bruxa
Na casa dos seus sessenta anos - suponho
Trajava um sobretudo verde musgo antigo
cheirando a naftalina
cheirando a naftalina
Sandálias de plástico azul tiffany
com meias surradas
E um chapéu marrom de abas capengas
enfeitado de penas
Não foi pelas suas vestes
Tampouco pelo seu cabelo comprido
Ou pela lata de cerveja barata
A revelação de sua cidadania
Não foi
Ela é bruxa. Eu sei que ela é
Havia uma aura de sabedoria ao seu redor e adiante
Um desdém cozido no fígado e servido no olhar
Uma apatia ornamental perante os eufóricos
Uma apatia ornamental perante os eufóricos
Essa mulher bruxa certamente não tem vida fácil
Sua feição dizia pranto
Mas ela sabe o que fazer com o difícil
Elas sabem
Não havia luz elétrica
Era tudo preto breu
Somente as bruxas
Sapeavam na escuridão
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Este poema foi escrito no inverno de 2021.
A cena descrita no poema é exatamente o que vi na praça ao lado da praia da Barra da Lagoa, naquele domingo de tarde antes do jogo de futebol começar, e a gente sair rumo ao primeiro boteco onde ouvi a lenda sobre a magia das bruxas que ronda toda a Ilha de Florianópolis, contada por um manesinho local, e pude então concluir o poema.
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