Eu não vou inventar nada por agora, querido amigo, pode ficar despreocupado. Minha vida está muito tranquila. Eu poderia estar lendo mais, não carrego culpa, se não estou me ocupando com os livros é porque tenho encontrado apenas histórias destonteantes. - Creio que inventei essa palavra.
Uma boa história não me distrai e você esteja certo disso.
Me perdoe, se não te escrevo mais amiúde é porque não posso. Tempo não me falta, tenho o bastante. Não posso escrever-te ou a outro porque a dinâmica da conversa me toma energia. Se eu tivesse descansado quando era dia e hora de descanso, estaria mais articulada nesta hora.
Passei o dia a arrastar-me entre os espaços da casa, tomada de cólicas e frio nos pés. O dia não foi de todo ruim, poderia ter lhe escrito com mais vigor, é verdade, teria lhe contado que assisti a um filme, parecido com um desenho animado, só que para adultos. Os diálogos eram interessantes, continham certa dose de lições de moral e um ou outro bla bla bla, na mesma medida que a fantasia extrapolava um pouquinho além da conta. O nome do filme é Era Uma Vez Um Gênio, com a super elegante Tilda Swinton, o que por si só ja teria valido o filme.
Essa mulher de traços agudos é arrepiante.
Mas não vou te falar mais do filme porque você não se interessa pelas minhas resenhas, eu sei.
Me diga o que eu posso fazer para escrevê-las de forma mais interessante, e não somente repetir preguiçosamente adjetivos como ótimo, lindo, ruim, bom. O meu vocabulário é atrofiado, as mais esplêndidas palavras me fogem segundos antes de virarem coisa alguma, ou seja e nada é tudo o que não é, mas nas minhas resenhas ficam sendo porque não consigo falar bonito.
Não quero mais falar sobre isso, meu amigo, porque, como lhe disse, o dia não foi aborrecível mas estava com a frequência flutuante.
Falei com algumas pessoas, seres humanos adoráveis, você iria se encantar em conhecê-los, mas agora não posso dizer mais nada porque já está tarde. Estou dando voltas para falar do contato entre os humanos. Você saberia me dizer porque o ato de falar e responder, de prestar atenção e pensar a respeito, de jogar palavras soltas ao vento para preencher lacunas que sequer existem - tudo isso e tudo mais que envolve trocas humanas - ainda que guardadas de boas intenções, é completamente trabalhoso? Se você ainda não se colocou a observar atentamente como um arqueólogo, faça isso, é exaustivo mas algum registro te sobrará. Vamos conversar mais sobre isso outra hora, estou cansada agora.
Falo com você porque a nossa intimidade me poupa cerimônias, estou esgotada das ideias. Me excedi.
Hoje eu amei 4 pessoas.
Considerando - ou desconsiderando - isso não importa, o tempo que passei em repouso a acalmar o ventre, entreguei-me para José Saramago, o homem que fala a língua de outra raça, só pode, você já deve ter tropeçado nas palavras dele. Visitei Lanzarote, lá nas Ilhas Canárias, onde o clima é quente o ano todo. E fiquei conhecendo Pilar Del Rio, sua mulher, longe de ser uma viúva chorosa, pelo contrário, é uma mulher com pretensões estabelecidas e muito atraente. Fiquei com vontade de ler A Intuição da Ilha, o livro onde Pilar relata a rotina dos 18 anos em que viveram juntos numa casa na Ilha.
Você por acaso já leu?
Me despeço, querido amigo, com as palavras de Saramago, porque as minhas já adormeceram:
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".
.
.
.
----------