quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Gata Está Parindo


1 ATO

A noite muda todas as coisas
A noite deixa toda a vida com cara de preta
A bochecha descansa quando a noite muda
Muda que só ela sabe como
Como chegar de quebra-galho ao suspiro de meia estação
Como abrir uma porta enferrujada uma rolha enterrada
O vizinho sabe
O porteiro sabe

A noite muda

O bege vira cinza craquelado
O rosa opaco fica
O café frio faz tempo
A roda gigante pega no sono
A noite de cor muda
Muda o aperto
Arrebenta na praia
Na pia, shhh
A gata está parindo

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2 ATO

A noite, diga-se de tormenta, não assume o seu provérbio
Na China a noite é dia
O olho um risco
A cadência, um grunhido
A noite não mostra os pardos

Gatos

Soturnos andantes à espreita do próximo muro
Andarilhos abjetos na mudança do que não muda

Não muda

A muda não fala a muda só cresce
Amém palavra muda
A noite calada pé ante pé até chegar na geladeira
Que não é muda
Muda todo dia
A noite muda conversa com a geladeira
Em mudez
A geladeira responde em berros
A noite desorganiza

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3 ATO

Desorganiza porque entende
O entendimento muda
Entendido se fez de rogado e não mudou
Mudou de queixo casa marido mas não mudou
A noite muda sorri
A noite muda até poste de lugar
Sacode o tapete ressussita os ácaros
Acorda fantasmas mudados de endereço e tudo
Mudanças súbitas porque a noite tudo muda
O pesadelo do abismo muda
Sair voando muda o rumo do céu

Se não acreditar não vale

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4 ATO

Cara de tacho daqueles bem grandes de fazer brigadeiro
Cara de pau-muda-brasil
A noite muda a esperança de lugar com os faltantes, a viagem o lugar da paisagem
Muda para sempre o dia
De antes e depois da trégua

Dentro do olho é noite
Mesmo no dia
Mesmo sempre
Em tempo muda
De muda em muda muito raramente acontece
Dentro do olho escuro tem noite tem muda
Cominho & Coentro
A noite muda o sol pro Japão

Não perturbe

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5 ATO

A gata está parindo
Nunca vi uma gata parindo
A noite muda as gatas parideiras para algum lugar secreto
As gatas, porque delas florescem tangerinas
Muda a cabeça de lugar revira a bola preta do olho

Chamada noite

Quem não te viu não te verás
A noite muda
Bagunça o balaio das gatas, rega a muda, espera ela
Enquanto isso, na sala de televisão
O sentido descortês cheio da noite
Muda

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

As Pequenas Coisas Santas

era uma vez o segundo coração

o picolé de limão com melissa

o passo todo dia do lampejo tenso

os livros ah os livros

não conquistam tantos devotos como antigamente

a palavra pássaro

enorme

voando ao redor do teu corpo

a explosão de água e sol

para lhe dar um último beijo de despedida

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Já Não Sei Os Versos Belos

Algo aqui me chama a atenção

Aqui é mania de falar

Aqui

Aqui

Não importa quantas vezes isso complica

Perdi o jeito de escrever sobre qualquer coisa

Pode ser a geografia

A terra beijando o céu

Não

Não pode ser

Estou perdida no tempo verbal

Na teoria revelada dentro dela

O caminho da porta está a minha esquerda

A cozinha à direita

Escrever à mão demora

O reflexo da luz perpassa a taça de vinho

Trazendo para o papel uma água viva cintilante

Vivinha e dançante

Tenho o ímpeto de segui-la

Tento agarrá-la com uma frase a mais

Descabida como langostinos

Preciso de um amor urgente

Para me guardar do vexame público

De agonizar dentro de um poema

Não fosse viva a água

Querendo me comer ou me queimar

Diria que tudo não passou de um chiste

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Me chamou a bailar me trouxe uma caneca colossal de café con leche me serviu tomates tostados à perfeição me disse marmelada ensalada de frutas manteca y pan a toalha de mesa xadrez me faria uma saia bem linda Deus meu! sonhei com você esta noche preciso contarte la fofoca esta

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