sexta-feira, 19 de junho de 2026

Rub-A-Dub


 

God we give thanks for life

O Que Você Comeu No Almoço Hoje?

Havia pássaros bem comportados cantando na linha do invisível

O canto dos pássaros, supostamente, é a observação persistente da melodia

Num extremo está o pássaro, no outro está você. No meio da linha está a melodia

Olhando bem, a melodia transporta o cantar dos pássaros para o lugar das imagens ausentes

Um pouco mais de atenção, a melodia e o som dos pássaros é uma aleluia de nota dispersa

O piar sequenciado de um falsete de mistério. Difícil saber quando a realidade entra dentro do sonho

Havia uma luz vermelha do lado esquerdo, um ponto de emergência situando a presença de tudo o que não se pode esperar. Um candelabro, um castiçal, a sirene da ambulância

Pare

Orquídeas roxas, toalhas roxas, penitência, oração, esmola e conversão

O sonho está saindo da realidade

A mulher está atenta do ponto alto de sua casa. A casa é dela

Está ouvindo agora os pássaros, os passos, a melodia contínua

Tudo se move, nada se move. O piado

Cheiro de palo santo no ar. Está na hora de almoçar

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O que você comeu no almoço hoje?

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"A Roberta tem essa mania de perguntar o que a gente comeu no almoço" - disse um amigo da Roberta

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Essa prática repetitiva que tenho, de perguntar para qualquer pessoa que se materializa na minha frente, o que ela comeu no almoço, é uma quase fantasia sexual de adentrar o espaço íntimo do outro e reconhecer o movimento dos seus miolos.

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Cérebros me excitam

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O raciocínio não tende a falhar: Num extremo está o pássaro, no outro está você. No meio da linha está a melodia.

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

A Gata Está Parindo


1 ATO

A noite muda todas as coisas
A noite deixa toda a vida com cara de preta
A bochecha descansa quando a noite muda
Muda que só ela sabe como
Como chegar de quebra-galho ao suspiro de meia estação
Como abrir uma porta enferrujada uma rolha enterrada
O vizinho sabe
O porteiro sabe

A noite muda

O bege vira cinza craquelado
O rosa opaco fica
O café frio faz tempo
A roda gigante pega no sono
A noite de cor muda
Muda o aperto
Arrebenta na praia
Na pia, shhh
A gata está parindo

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2 ATO

A noite, diga-se de tormenta, não assume o seu provérbio
Na China a noite é dia
O olho um risco
A cadência, um grunhido
A noite não mostra os pardos

Gatos

Soturnos andantes à espreita do próximo muro
Andarilhos abjetos na mudança do que não muda

Não muda

A muda não fala a muda só cresce
Amém palavra muda
A noite calada pé ante pé até chegar na geladeira
Que não é muda
Muda todo dia
A noite muda conversa com a geladeira
Em mudez
A geladeira responde em berros
A noite desorganiza

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3 ATO

Desorganiza porque entende
O entendimento muda
Entendido se fez de rogado e não mudou
Mudou de queixo casa marido mas não mudou
A noite muda sorri
A noite muda até poste de lugar
Sacode o tapete ressussita os ácaros
Acorda fantasmas mudados de endereço e tudo
Mudanças súbitas porque a noite tudo muda
O pesadelo do abismo muda
Sair voando muda o rumo do céu

Se não acreditar não vale

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4 ATO

Cara de tacho daqueles bem grandes de fazer brigadeiro
Cara de pau-muda-brasil
A noite muda a esperança de lugar com os faltantes, a viagem o lugar da paisagem
Muda para sempre o dia
De antes e depois da trégua

Dentro do olho é noite
Mesmo no dia
Mesmo sempre
Em tempo muda
De muda em muda muito raramente acontece
Dentro do olho escuro tem noite tem muda
Cominho & Coentro
A noite muda o sol pro Japão

Não perturbe

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5 ATO

A gata está parindo
Nunca vi uma gata parindo
A noite muda as gatas parideiras para algum lugar secreto
As gatas, porque delas florescem tangerinas
Muda a cabeça de lugar revira a bola preta do olho

Chamada noite

Quem não te viu não te verás
A noite muda
Bagunça o balaio das gatas, rega a muda, espera ela
Enquanto isso, na sala de televisão
O sentido descortês cheio da noite
Muda

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quarta-feira, 17 de junho de 2026