O único jeito de não enlouquecer fatalmente
É enlouquecer um pouco a cada dia
Sem movimentos agitados
A loucura diária precisa de pausas e permissões
Enlouquecer devagarzinho até virar um doce de leite
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O único jeito de não enlouquecer fatalmente
É enlouquecer um pouco a cada dia
Sem movimentos agitados
A loucura diária precisa de pausas e permissões
Enlouquecer devagarzinho até virar um doce de leite
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(há anos, muitos e muitos anos, guardo este poema como se ele fosse uma pedra preciosa o que acredito com toda força que ele realmente é, não tem nada mais lindo do que ser a praia de alguém, eu queria ser, juro que eu queria, ou o alface, que lindo ser o alface de alguém...)
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Eu gostaria de ser um ninho se você fosse um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço se você fosse um pescoço e estivesse com frio
Se você fosse música,
eu seria uma orelha
Se você fosse água,
eu seria um copo
Se você fosse a luz,
eu seria um olho
Se você fosse um pé,
eu seria uma meia
Se você fosse o mar,
eu seria uma praia
E se você ainda fosse o mar
eu seria um peixe
e nadaria em você
E se você fosse o mar,
eu seria sal
E se eu fosse sal,
você seria alface,
ou abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se você fosse um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geléia
Se você fosse geléia
eu seria o pêssego na geléia
Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore
E se você fosse uma árvore,
eu seria uma seiva
e correria em seus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em seu coração
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Havia pássaros bem comportados cantando na linha do invisível
O canto dos pássaros, supostamente, é a observação persistente da melodia
Num extremo está o pássaro, no outro está você. No meio da linha está a melodia
Olhando bem, a melodia transporta o cantar dos pássaros para o lugar das imagens ausentes
Um pouco mais de atenção, a melodia e o som dos pássaros é uma aleluia de nota dispersa
O piar sequenciado de um falsete de mistério. Difícil saber quando a realidade entra dentro do sonho
Havia uma luz vermelha do lado esquerdo, um ponto de emergência situando a presença de tudo o que não se pode esperar. Um candelabro, um castiçal, a sirene da ambulância
Pare
Orquídeas roxas, toalhas roxas, penitência, oração, esmola e conversão
O sonho está saindo da realidade
A mulher está atenta do ponto alto de sua casa. A casa é dela
Está ouvindo agora os pássaros, os passos, a melodia contínua
Tudo se move, nada se move. O piado
Cheiro de palo santo no ar. Está na hora de almoçar
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O que você comeu no almoço hoje?
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"A Roberta tem essa mania de perguntar o que a gente comeu no almoço" - disse um amigo da Roberta
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Essa prática repetitiva que tenho, de perguntar para qualquer pessoa que se materializa na minha frente, o que ela comeu no almoço, é uma quase fantasia sexual de adentrar o espaço íntimo do outro e reconhecer o movimento dos seus miolos.
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Cérebros me excitam
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O raciocínio não tende a falhar: Num extremo está o pássaro, no outro está você. No meio da linha está a melodia.
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