A panela de pressão no talo cozinhando feijão pro almoço
O rádio chiando no quartinho alto era a voz dele
O carro de som anunciando a festa no clube no sábado
O telefone clamando sem parar um minuto o que o tempo não pode consertar
Ro beeeeeeeeer ta
A panela de pressão no talo cozinhando feijão pro almoço
O rádio chiando no quartinho alto era a voz dele
O carro de som anunciando a festa no clube no sábado
O telefone clamando sem parar um minuto o que o tempo não pode consertar
Ro beeeeeeeeer ta
Mãe do silêncio e da humildade, tu vives perdida e encontrada no mar sem fundo do mistério do Senhor. Tu és disponibilidade e receptividade. Tu és fecundidade e plenitude. Tu és atenção e solicitude pelos irmãos. Estás revestida de fortaleza. Resplandecem em ti a maturidade humana e a elegância espiritual. Es senhora de ti mesma antes de ser Nossa Senhora.
Em Ti não existe dispersão. Em um ato simples e total, tua alma, toda imóvel, está paralisada e identificada com o Senhor. Estás dentro de Deus, e Deus dentro de ti. O mistério total te envolve, penetra e possui, ocupa e entrega todo o teu ser.
Parece que em Ti tudo ficou parado, tudo se identificou contigo: o tempo, o espaço, a palavra, a música, o silêncio, a mulher, Deus. Tudo ficou assumido em Ti, e divinizado.
Jamais se viu figura humana de tamanha doçura, nem se voltará a ver nesta terra uma mulher tão inefavelmente evocadora.
Teu silêncio não é ausência mas presença. Estás abismada no Senhor e ao mesmo tempo atenta aos irmãos, como em Caná. A comunicação nunca é tão profunda quando como quando não se diz nada e o silêncio nunca é tão eloquente como quando nada se comunica. Faz-nos compreender que o silêncio não é desinteresse pelos irmãos mas fonte de energia e de irradiação.
Não é encolhimento mas projeção. Faz-nos compreender que para derramar é preciso preencher-se. Afoga-se o mundo no mar da dispersão e não é possível amar os irmãos com um coração disperso. Faz-nos compreender que o apostolado sem silêncio é alienação, e que o silêncio sem apostolado é comodidade. Envolve-nos em teu manto de silêncio e comunica-nos a fortaleza de tua fé, a altura de tua esperança e a profundidade do teu amor.
Fica com os que ficam e vem com os que partem, ó Mãe Admirável do Silêncio!
Amém
O único jeito de não enlouquecer fatalmente
É enlouquecer um pouco a cada dia
Sem movimentos agitados
A loucura diária precisa de pausas e permissões
Enlouquecer devagarzinho até virar um doce de leite
.
.
.
----------
(há anos, muitos e muitos anos, guardo este poema como se ele fosse uma pedra preciosa o que acredito com toda força que ele realmente é, não tem nada mais lindo do que ser a praia de alguém, eu queria ser, juro que eu queria, ou o alface, que lindo ser o alface de alguém...)
*
Eu gostaria de ser um ninho se você fosse um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço se você fosse um pescoço e estivesse com frio
Se você fosse música,
eu seria uma orelha
Se você fosse água,
eu seria um copo
Se você fosse a luz,
eu seria um olho
Se você fosse um pé,
eu seria uma meia
Se você fosse o mar,
eu seria uma praia
E se você ainda fosse o mar
eu seria um peixe
e nadaria em você
E se você fosse o mar,
eu seria sal
E se eu fosse sal,
você seria alface,
ou abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se você fosse um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geléia
Se você fosse geléia
eu seria o pêssego na geléia
Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore
E se você fosse uma árvore,
eu seria uma seiva
e correria em seus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em seu coração
.
.
.
----------