Mas não. Não é o caso de se preocupar, garanto.
Te conheço, meu amigo, quando não manda notícias é porque está escrevendo novos ensaios, no seu tom chistoso, com as mesmas palavras de sempre, as coitadas cotidianas, cada hora num roteiro novo.
Assim, desse jeito, você não me ajuda muito.
Às vezes consigo entender, juro, mas nem todas. Quisera ter comentado com você antes desta carta chegar, sobre a raiva, acumulada quando você me fala, repete, altera a voz sem triscar:
Chega, Roberta.
Sinto a cólera se lançar no espaço injusto do descontrole. Depois passa, demora, vira só uma tristeza avinagrada. Fajuta. Tão fajuta não sustenta um adendo. Mas persiste pelo menos ao longo de um dia.
Já falamos sobre isso, um dia é muito tempo para as noites absurdas.
Quem disse noites absurdas foi um amigo, cuja jabuticaba em cada um de seus olhos encaçapa qualquer status, principalmente os não perceptíveis, os mais absurdos e os mais serenos.
Meu amigo se chama Filipe Sereno.
Suponho que as estrelas se juntaram em reunião extraordinária para definir a sua graça. Quando conhecer Filipe Sereno saberás exatamente que o menininho poderá tocar gaita, falar em mandarim, contorcer o corpo e construir cidades. Quem sabe até um mundo novo ele dará um jeito de criar.
Menos injuriado
Por falar em gaita, o vizinho está tocando neste exato minuto, cinco andares sobre a minha cabeça
jazz
entrando de fininho pela janela, tragando o ruído mal cheiroso das ruas do centro da cidade, me perdoe falar assim
mas o que estou sentindo agora é saudade.
Principalmente depois de ter encontrado Filipe Sereno e Francisca, a cadela que por descuido não pariu minha barriga.
Nesta altura que atinge a saudade, ter um vizinho que toca gaita é um blefe, você pode estar pensando. Visto que ter um vizinho que estica suavemente as colcheias exatas, colocando na terça-feira um pouco de férias, aparenta mesmo história de malandro em noite de lua cheia.
Contudo parece-me legítimo
viver a história e contar a saudade
ai
ai
Te parece também?
Estou com saudade da semana passada, de algo absolutamente vivível
Estou encucada com uma coisa, meu amigo, porque férias é uma entidade que me encuca, o conceito e a prática, a expectativa, realidade e tals.
O que é férias para você?
Eu não sabia, ainda me falta saber ao certo, mas arrisco sem pretensões de gol, dizer que as minhas férias perfeitas existe.
Lá o sol brilha quando bem quer. Sem contrassenso.
O verde, aquele verde tristonho que não combina com o azul, ele não existe. O verde das férias perfeitas é um verde desbotado pelo tempo, vibrante de sombra e água fresca - agora tomo nota que sombra e água fresca não é conceito de estilo de vida de contador de histórias, evidente por certo, ao contrario do que imaginava, recebera até com naturalidade.
Havia deixado de ser um insulto, como se passasse a miopia e visse claramente o mundo. O relance mais simples e profundo que tivera da vida como era e como poderia ser.
Você, meu amigo, por acaso já encontrou suas almas gemelas durante as férias? Pois, lhe digo que eu sim. Cada inspirada de ar é como uma vida inteira nova em poucos dias. Que já existia mesmo quando nem se falava em férias.
Nas minhas férias perfeitas o dia é domingo, mas já era noite, de lua cheia alaranjada radioativa, hora de missa, cantoria e velas acesas, na ponta da frente da igrejinha branca, o mar, de banho tomado para ver deus.
A tudo diria sim, sem dar a menor importância.
Mande-me cartas, querido amigo, quando quiser, a saudade anda vivendo os seus dias gloriosos.
Com amor
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Esta história foi originalmente escrita e publicada no dia 24/06/2024 na antiga newsletter beta.

