quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Querido Amigo Eu Tenho Um Vizinho Que Toca Gaita


Quão agitado você tem estado no momento? 

Escrevo agora pois gosto de escrever-te nas horas agitadas. Não tão agitadas quanto as águas do Campeche, você se lembra, além de gélidas, são águas favoráveis para troncos robustos. Tampouco calminhas, como as águas de Trancoso, marola de brisa leve, boa para pensar na vida. 

Te escrevo entre uma pernada e outra, um deslize e um achado. 

Te escrevo a qualquer dia a qualquer hora, um pouco mais concentrada, apenas para dizer-lhe que tenho um vizinho que toca gaita. 

E você certamente me perguntaria sobre o cheiro doce agridoce do creme de cabelo sobre o pernil assado. 

Logo, essa é a deixa: o movimento dialético vai se sobrepondo aos poucos, em circunstâncias que deságuam num verde tom de água tão lindo, mas tão aguado, me resvalo de acreditar na maracutaia das muriçocas. 

Mas não. Não é o caso de se preocupar, garanto.

Te conheço, meu amigo, quando não manda notícias é porque está escrevendo novos ensaios, no seu tom chistoso, com as mesmas palavras de sempre, as coitadas cotidianas, cada hora num roteiro novo. 

Assim, desse jeito, você não me ajuda muito. 

Às vezes consigo entender, juro, mas nem todas. Quisera ter comentado com você antes desta carta chegar, sobre a raiva, acumulada quando você me fala, repete, altera a voz sem triscar: 

Chega, Roberta. 

Sinto a cólera se lançar no espaço injusto do descontrole. Depois passa, demora, vira só uma tristeza avinagrada. Fajuta. Tão fajuta não sustenta um adendo. Mas persiste pelo menos ao longo de um dia. 

Já falamos sobre isso, um dia é muito tempo para as noites absurdas. 

Quem disse noites absurdas foi um amigo, cuja jabuticaba em cada um de seus olhos encaçapa qualquer status, principalmente os não perceptíveis, os mais absurdos e os mais serenos. 

Meu amigo se chama Filipe Sereno. 

Suponho que as estrelas se juntaram em reunião extraordinária para definir a sua graça. Quando conhecer Filipe Sereno saberás exatamente que o menininho poderá tocar gaita, falar em mandarim, contorcer o corpo e construir cidades. Quem sabe até um mundo novo ele dará um jeito de criar.

Menos injuriado

Por falar em gaita, o vizinho está tocando neste exato minuto, cinco andares sobre a minha cabeça

 jazz

entrando de fininho pela janela, tragando o ruído mal cheiroso das ruas do centro da cidade, me perdoe falar assim

mas o que estou sentindo agora é saudade. 

Principalmente depois de ter encontrado Filipe Sereno e Francisca, a cadela que por descuido não pariu minha barriga. 

Nesta altura que atinge a saudade, ter um vizinho que toca gaita é um blefe, você pode estar pensando. Visto que ter um vizinho que estica suavemente as colcheias exatas, colocando na terça-feira um pouco de férias, aparenta mesmo história de malandro em noite de lua cheia. 

Contudo parece-me legítimo 

viver a história e contar a saudade

ai
ai

Te parece também? 

Estou com saudade da semana passada, de algo absolutamente vivível

Estou encucada com uma coisa, meu amigo, porque férias é uma entidade que me encuca, o conceito e a prática, a expectativa, realidade e tals

O que é férias para você? 

Eu não sabia, ainda me falta saber ao certo, mas arrisco sem pretensões de gol, dizer que as minhas férias perfeitas existe. 

Lá o sol brilha quando bem quer. Sem contrassenso. 

O verde, aquele verde tristonho que não combina com o azul, ele não existe. O verde das férias perfeitas é um verde desbotado pelo tempo, vibrante de sombra e água fresca - agora tomo nota que sombra e água fresca não é conceito de estilo de vida de contador de histórias, evidente por certo, ao contrario do que imaginava, recebera até com naturalidade.

Havia deixado de ser um insulto, como se passasse a miopia e visse claramente o mundo. O relance mais simples e profundo que tivera da vida como era e como poderia ser.

Você, meu amigo, por acaso já encontrou suas almas gemelas durante as férias? Pois, lhe digo que eu sim. Cada inspirada de ar é como uma vida inteira nova em poucos dias. Que já existia mesmo quando nem se falava em férias. 

Nas minhas férias perfeitas o dia é domingo, mas já era noite, de lua cheia alaranjada radioativa, hora de missa, cantoria e velas acesas, na ponta da frente da igrejinha branca, o mar, de banho tomado para ver deus.

A tudo diria sim, sem dar a menor importância.

Mande-me cartas, querido amigo, quando quiser, a saudade anda vivendo os seus dias gloriosos.

Com amor

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Esta história foi originalmente escrita e publicada no dia 24/06/2024 na antiga newsletter beta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Gorda E Viciada Em Uísque

 

"Nos dois anos seguintes, ele viajou, a cavalo, pela Califórnia. Sensato não era. Três casamentos - o mais longo durou sete semanas - deram profundas dentadas nas suas economias. O jogo dava para cobrir a bebida, mas a bebida lhe provocava visões loucas. Sempre pronto a seguir sua luz interior, Jake investiu quantias generosas em aventuras altamente especulativas, aprendendo, do jeito mais difícil, que às vezes, quando se põe dinheiro na mesa, é tão somente para lhe dar um beijo de despedida."

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"Um dia, no final dos anos 1960, um hippie perambulou até o rancho. Depois de anunciar, em voz arrastada e vagarosa, os olhos no vácuo, que procurava e considerava bem-vindas todas as formas de transformação mental, e que tinha ouvido falar que Jake fazia uma bebida dotada dessas propriedades de alteração da mente, ele ofereceu dois comprimidos de LSD em troca de uma boa amostra de uísque. Vovô guinchou e deitou falação sobre como odiava as drogas e como devia atirar em sua bunda suja, cabeluda e cheia de merda por tentar corromper-lhe o neto, mas, já que era a primeira vez que alguém realmente queria experimentar o Velho Sussurro da Morte, acabou se acalmando."

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"As diferenças de temperamentos se transformaram em estilos. Miúdo gostava de pureza linear e aberta do jogo de damas. Vovô preferia o jogo de baralho com cartas marcadas, em que sua força está nos seus segredos e você voa rumo ao olho do caos montado no próprio fantasma."

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"Mas o que o deprimiu foi descobrir que tinha perdido os dois últimos dentes que se juntavam, e enquanto passava a língua nas cavidades salgadas e sensíveis sentiu uma fadiga melancólica infiltrar-se em seu sangue. Passar a eternidade desdentado era uma perspectiva lúgubre, mas, quem sabe, talvez após umas duas centenas de anos as gengivas ficassem bastante duras para aguentar o confronto com uma porção de costeletas. Só tinha que ficar quieto e ter fé, esse era o fator principal. Não havia razão para desistir. Mas estava contente porque o dia seguinte era domingo e não teria que dar aula a Fup."

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Um livrinho finiquinho para ler numa sentada e lembrar pra sempre

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FUP - uma fábula de Jim Dodge
Tradução: Melany Latterman
Amarcord - Rio de Janeiro 2024


Barata de Sacristia

Pérolas poéticas jogadas ao vento boas demais para serem esquecidas no além.

Quem disse? Isso não importa...

Depois que a palavra saiu da boca não tem mais dono. Se te servir pode pegar, são suas, as minhas já peguei...

Sem aspas:

- Num tô aguentando nem chutar uma laranja

- A cara dele conta tudo

- A mãe dele chama Reginalda sobrinha do Zé Panela

- Ele é bem saliente só virou padre porque a mãe fez promessa

- Acordar de madrugada e capinar uma rua de café

- Dobrou a defunta para gastar pouca madeira e fazer um caixão menor

- Não sei o que que eu fiz de ruim para sofrer tanto assim

- Você já comeu leite em pó com abacate?

- Tá vendo esse mosquitinho amarelo o nome dele é Fevereiro

- Ele curou o medo de assombração

- Você não me ama direito se me amasse eu estaria esperando gêmeos e não um só

- Se eu bebo meu braço fica mole parece que vai cair

- Meu café completo

- Na outra encarnação ele quer vir uma garça

- Não me tira do meu eu

- Puta que me pariu te

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A poesia é mesmo um monstro voador...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Poesia Pura



Todo crédito de beleza bondade e justiça para a criatura que me enviou esse cascalho bruto cujo nome 

não vou dizer 

por ser boa em guardar segredos 

digo apenas 

concordo

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Vale a pena correr o olho pelas próximas linhas e perder o ar por um instante:


 “Affirmation” 

by Assata Shakur

I believe in living
I believe in the spectrum
of Beta days and Gamma people
I believe in sunshine
In windmills and waterfalls
tricycles and rocking chairs
And i believe that seeds grow into sprouts
And sprouts grow into trees
I believe in the magic of the hands
And in the wisdom of the eyes
I believe in rain and tears
And in the blood of infinity

I believe in life
And i have seen the death parade
march through the torso of the earth
sculpting mud bodies in its path
I have seen the destruction of the daylight
and seen bloodthirsty maggots
prayed to and saluted

I have seen the kind become the blind
and the blind become the bind
in one easy lesson
I have walked on cut glass.
I have eaten crow and blunder bread
and breathed the stench of indifference

I have been locked by the lawless
Handcuffed by the haters
Gagged by the greedy
And, if i know any thing at all
it’s that a wall is just a wall
and nothing more at all
It can be broken down

I believe in living
I believe in birth
I believe in the sweat of love
and in the fire of truth

And i believe that a lost ship
steered by tired, seasick sailors
can still be guided home
to port

O vídeo continua... estremecendo da espinha até a nuca como um insulto

E saindo pela boca