13 de junho de 2021
Domingo
Depois de comer e beber todo sal da Ilha na noite passada fizemos um mutirão bastante eficiente hoje de manhã para limpar os restos mortais da reunião de ontem
Reunião é o conceito mais apropriado para o que aconteceu aqui nesta casa: mulheres reunidas em volta da mesa com o útero pegando fogo é um acontecimento considerado perigosíssimo desde que o mundo era mundo
Passei um café em seguida ovos mexidos e pão com bastante manteiga na chapa
Foi assim que a vida como a conhecemos voltou a tomar forma
João o nosso vizinho do lado direito nos convidou para um churrasco de almoço
quanta gentileza pensei
carne na brasa com vegetais o solzinho sapeca de inverno e boas pessoas era tudo o que eu não sabia que poderia acontecer em se tratando de paixões sérias
Éramos cinco pessoas ou cinco protótipos
Palavras à toa não foram ditas
Sara
a vizinha do lado esquerdo introspectiva segundo o próprio ciclo
passou ao que me lembro bem enrolada sorrindo consigo mesma
João
naturalmente de poucas palavras se ocupou com o ponto perfeito da carne onde não cabia mais nada
tampoucas palavras
o cheiro irradiado da churrasqueira dizia o alfabeto inteiro
Me plantei no sofá enquanto o sol se fez presente e não arredei a bunda por nada
absolutamente nada no mundo tinha mais urgência naquele momento do que a correspondência do domingo com o sol com o sofá com os nossos corações emitindo auras
(Será que alguém estava percebendo?)
Morreria fatalmente satisfeita se fosse o caso de morrer ali
José
que tem por esporte filosofar sobre a complexidade das coisas complexas da vida se ateve à filosofia do estritamente necessário
(para não quebrar o fio filosófico da inexistência de um domingo)
Matheus
um ser humano poeta
selvagem
intrigante
sempre desconfiei habitar uma dimensão diferente ou todas elas ao mesmo tempo estava em trânsito de corpo
Quase pude tocar no ar
a beleza
a história
a tristeza
as frases que poderiam ter sido ditas a contento de um pensamento solto no espaço
não foram
o ponteiro esquecido do relógio parou
Havia uma concreta sensação de não estar no tempo datado senão num tempo criado por um acordo de almas coexistindo
Essa história termina no Pântano do Sul
com as ondinhas miúdas do mar de barco de pescadores
as cores frias do inverno comendo peixe, camarão e tomando cerveja
Um presente silencioso enviado pelas bruxas faceiras da terra do nunca
Não duvido

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