terça-feira, 10 de maio de 2022

O Silêncio De Um Domingo Extraordinário



















13 de junho de 2021

domingo


Depois de comer e beber todo sal da Ilha na noite passada, fizemos um mutirão bastante eficiente hoje de manhã para limpar os restos mortais da reunião de ontem. 

Acho que sim, reunião é um bom nome para o que aconteceu nesta casa, mulheres reunidas em volta da mesa com o útero pegando fogo é um momento a se considerar seríssimo, por assim dizer. Passei um café em seguida, ovos mexidos e pão com bastante manteiga na chapa

Foi assim que conseguimos ressuscitar

João, nosso vizinho do lado direito nos convidou para um churrasco de almoço, quanta gentileza dele, pensei, uma carne na brasa com vegetais junto com o solzinho maroto de inverno e boas pessoas era tudo o que eu não sabia que queria

Passamos algumas horas em sua casa em transe sincronizado

palavras à toa não foram ditas

Sara, a vizinha do lado esquerdo, segundo disse, tem vivido uma fase introspectiva e passou o dia todo 

sorrindo consigo mesma

João, naturalmente de poucas palavras, se ocupou em preparar um churrasco tão perfeito onde não caberia de fato mais nada

tampoucas palavras o cheiro irradiado da churrasqueira dizia o alfabeto inteiro

Me plantei no sofá enquanto o sol se fez presente e não arredei a bunda por nada
nada tinha mais urgência naquele momento do que a correspondência 
do domingo com o sol com o sofá com os corações emitindo auras

será que alguém estava percebendo? Poderia morrer e morreria fatalmente satisfeita

José, que tem por esporte filosofar sobre a vida, se ateve à filosofia do estritamente necessário para não quebrar o fio filosófico de um domingo que nunca existiu

Matheus, um ser humano poeta intrigante que sempre desconfiei habitar uma dimensão diferente ou todas elas ao mesmo tempo, estava em trânsito de corpo

Quase pude tocar no ar 
a beleza a história a tristeza
as frases que poderiam ter sido ditas mas não saíram do pensamento
o ponteiro petrificado de susto do relógio

Não lembro ter vivido isso antes, uma concreta sensação de não estar no tempo datado senão num tempo criado por uma comunhão de almas coexistindo.

Terminamos o domingo no Pântano do Sul olhando as ondinhas miúdas
o mar de barcos de pescadores 
as cores frias do inverno
Comendo peixe, camarão e tomando cerveja


Um presente silencioso enviado pelas bruxas faceiras da terra do nunca

Não duvido




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