Marieta querida, você há de me compreender, se não você, estou perdida, não digo isso pela nossa amizade de muitos anos, pois as amizades de muitos anos tem a ver com a validez das coisas. O que vou lhe dizer é com intimidade que digo, é mortal sustentar qualquer mudança de vida diante de duas batatas de olhos que te conhecem a fundo, antes de você mesma se conhecer. O outro de muitos anos carrega a poeira de quem você foi e nada será feito por isso.
As relíquias são mantidas diante dos fatos porque convém, porque é muito triste matar cada instante que em si mesma já não é mais válido.
Mas com você é diferente, Marieta, eu gosto da nossa amizade de muitos anos porque a sua alma é boa, diferente duma outra que conheço e de tantas outras que vagueiam pelo asfalto durante o dia. Gosto, inclusive, da sua angústia quieta de não saber o que fazer e somente por isso permanecer no mesmo lugar. Você sempre me diz para esperar o sol nascer amanhã, para dormir um sono quente, para ir a igreja desvagar - você sempre, sempre me diz uma palavra, e ela é sempre delicada. As minhas pernas não fazem o mesmo por mim. A minha alma, de quem caminhou sozinha a estrada durante a madrugada, tampouco. O meu espírito vagou, Marieta, ao ponto de você saber mais de mim do que eu poderia por impulso presumir. Me diga você algo sobre mim. Sei onde fica o quarto, a padaria e a rodoviária, mas as sinapses do meu cérebro perderam o fio da conexão e, por isso, a comunicação entre os neurônios está difusa, não conclusa, e alheia demais. Ando tendo, também, ausência de querer. Quem disse tudo isso foi o médico que evitou me olhar nos olhos. Tentei por duas vezes encontrar os dele sem êxito. Escreveu trêmulo sua letra torta, o meu estado, e me entregou um papel dobrado.
Você me palavreou melhor, Marieta, estou mesmo doente é de desamor.
Outros estão dizendo que estou oprimida, o que pra mim não significa absolutamente coisa alguma, vou olhar no dicionário o que isso quer dizer. Sim, eu vou. Vou também passar um tempo em Madagascar. Na esperança dos baobás gigantes devolverem o meu espírito.
Esse negócio de boa intenção que você vive me dizendo, Marieta, é feito mexerica que passou da vez, até entendo um pouco, sinto o bem quando o mal leva, como o caldo rançoso da fruta que já não é, mas enquanto sinceridade, só tenho uma, não duas, intenção na cabeça. Eu quero, Marieta, que todos se explodam, de forma igual, pelos ares, não consigo pensar em nada tão bonito. E esperar o sol nascer amanhã como se nada tivesse acontecido além de mais um dia. Aquele inchaço já não me preocupa mais, olho para os tornozelos redondos e me lembro de ti, da sua calma, que fala cada hora uma coisa, quase sem querer ser ouvida, com a voz cheia de mel. Uma grande explosão, penso eu, seria o suficiente para desencadear a validade da criação.
Há dois dias passei na Livraria Luiza, aquela que fica dentro do CineLuiza, naquela ruinha do centro, e toda santa vez fico me perguntando a mesma coisa: Será que o CineLuiza paga glória ao Chico? Que Luiza é essa? Se eu fosse escritora, Marieta, me enforcaria agora. Não consta nos anais da minha condição humana conviver com o fantasma dos versos de Luiza me atormentando o desamor. Prefiro não saber nada sobre Luiza. Amo a criação à medida que ela não me ama. Que voe pelos ares o Chico também.
Vem cá, Luíza, me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza, me dá tua boca
E a rosa louca, vem me dar um beijo
Tudo culpa dos livros, Marieta. Todos eles chatos, chatíssimos, chatérrimos, sem amor, desamor, sem vontade de amar, deus que me socorra, desse jeito acabo perdendo o agrado pelas palavras e fico com essa ausência de querer.
Mas o problema, porque isso sim é um problema, é que eu quero muito.
Tudo.
Tem alguma coisa transfigurada neste diagnóstico. Eu sei que você não concorda comigo, nenhuma vulgaridade te atinge, Marieta, sua alma é aristocrata, a minha, vagabunda. Eu quero ler uma história que ainda não sei qual é, não sei onde se esconde, história de gente que poderia ser eu ou você, que se confunde de existir, que vive com a cabeça enfiada na terra, come um docinho escondido para não contar a caloria, suspira longamente em voz alta e chora, gente humana capenga de amor.
Estou com as têmporas inflamadas de tanto nervoso. Você viu.
Eu quero histórias que não venha com inteligência de dosador, tipo aquele cacoete desagradável da sua tia, coitada, ela está sempre fingindo, parece até um fantoche de si mesma, finge saber mais do que sabe no entanto só fala advérbios. Imagine você uma história que atira no primeiro parágrafo, na quarta ou quinta linha, trechos de um poema em línguas estranhas.
Imaginou?
Alguns acharão pretensioso demais, mas não eu, vou me sentir tão analfabeta ao ponto de continuar lendo por pirraça, até entender qualquer coisa. Foi exatamente isso que pedi pro Paulo, lá da Luiza, um livreto de arrepiar o ventre. Ele ficou me escutando com cara de distância, tinha umas olheiras arroxeadas tão fundas seus olhos pareciam um deserto, depois balbuciou algumas perguntas avulsas - eu não gosto de scotch, nem com gelo nem sem gelo, o que isso pode influenciar na história que quero ler não sei. O Paulo não está bem, pegou na prateleira Apenas Árvores de uma escritora que me foge o nome agora, e apesar desse nome apoético, levei. Em consideração ao Paulo. Depois fui saber que sua esposa havia deixado a cidade e a casa, Paulo se incluiu na deixa porque nem bilhete ela deixou. Mas ele garantiu que vou me arrepiar em Madagascar.
Em Agosto nos vemos, Marieta, eu volto porque não tenho mais preocupação com o futuro, ele é meu enquanto eu viver, não estou fugindo, estou indo de encontro aos baobás milenares de Madagascar, aliás, eu só sei, em todas as circunstâncias, que a tecnologia ainda não atingiu os baobás.
Eu volto.
Meus sinceros sinceros, Maria Joana
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