quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

The Last Poets

tem dia que a palavra não desloca até o dedo

para todos os outros existe os últimos

ferozes alucinados meio zen

os esperançosos de toda manhã

os seres estranhos do reino

o maluco beleza da sociedade alternativa

cavucando dentro do corpo do porco a fim de encontrá-la

e mesmo quando não a encontra inventa

passa um café come um pão de queijo

como quem não espera nada e

de súbito ela aparece em espiral, cheirosa e graciosa

transformando o vazio em algo

é isso que os últimos poetas fazem para sobreviver

de um jeito ou de outro colocar no mundo

um mundo que não existia até então

uma justificativa injustificável

é disso que falam o tempo todo

doce de figo geléia de jabuticaba

como se fosse francesa falando palavras novas

mas é a lingua de sempre com sotaque esquisito

não tem cura mãe do céu

.

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imagem via


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meu Paraíso Chamado Meu Paraíso

 Já era de noitinha a boca da noite me disse 

senta um pouquinho Roberta conta pra nós o teu conto

Um canto em Veneza não teria o mesmo verso apalpado dessa conversa de um lado só

Porque serei agora entrevistada de mim mesma

Deixei que as palavras encruadas fossem levadas para a embocadura mais estreita do funil e me deixasse apenas com uma minhoca comida à espreita pela traíra mais safada da represa toda

As capivaras que não cruzaram o meu caminho possivelmente viram tudo, deixaram rastro, cada bolinha, uma a uma, sendo posta à fora

Inspirada por Paulo e Pedro preciso comunicar a boa nova 

o objetivo de tudo isso é amar 

amar como as maritacas, estridentemente

Eis aqui uma nova ave rara. Um novo estilo de gritar

Fiquei sabendo agora que São Pedro é o porteiro zelador do céu 

doutor das gentes

Pois que São Pedro me ajude com o espinho do dedo e o mistério do amor redimido

Em nome dela 

sereia metade mulher metade peixa, Iara

leve meu conto para as profundezas das águas claras. Bendita seja

Naquela mesma noite faltou luz 

calcei as sandálias acendi a lanterna e fui pra casa 

o anjo me disse que era realidade o que estava vivendo, pois pensava como criação nova que aquilo poderia ser uma visão

De todos os temores me livrou o anjo. Da feiura e da vergonha agora estou livre. Olhe a minha face descoberta, livre de toda angústia

Justamente quando já estava para ser derramada em sacrifício, escuto a voz de Paulo

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”

Posso enfim me arrumar tranquilamente com os adornos do meu gosto 

justiça seja feita o anjo não saiu do meu lado nem para um xixi, me deu força e permitiu que algumas palavras por mim fossem ditas  - e ouvidas por alguns ouvidos

Na última hora fui libertada

O azul do céu hoje está impiedoso, pergunto, mãe, isso é um sinal? 

Pedra é feminino de Pedro e eu nunca tinha pensado nisso 

Manina é o nome da vaca que não pode gestar - quanta novidade me acometeu nas férias de Julho de 2025

Jamais esquecerei do cheiro doce do pasto que banhava a represa e guardava a gruta. Uma região sem portas para o inferno

Sou feliz. Sou também filha da Lísia

E quem me disse isso não foi nenhum ser humano o anjo disse no primeiro dia das férias 

Me cabe no entanto gravar na pedra e construir a minha casa. Tenho comigo as chaves do reino

Todo amor na terra será duas vezes amor no céu 

O Meu Paraíso tinhas as porteiras trancadas para os sequestradores não entrarem

mas disseram que os seqüestradores temem a nós, da baixada fluminense, confiam na vossa misericórdia. 

Uai, eles disseram. E abriram as portas do paraíso

Nada me tira mais daqui


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Telefone Fixo Para Celular


 

Fulano está seguindo você

Fulano está on line

Fulano bloqueou você

Fulano visualizou e não respondeu

Fulano apagou as mensagens

Fulano enviou coração fogo gratidão

Fulano deixou de seguir você

Eu gostava quando o telefone tocava

Atendia Alô

Não era trote

(Era o fulano)

.

.

Mas é claro que usaria um desse

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Seu Maurício Me Disse

Não há sábado sem sol

Domingo sem missa

Segunda sem preguiça


... e disse ainda

Aonde tá o homem tá o perigo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cansada De Dar Dó

cansada

cansada de estar cansada

cansada dos sentimentos avoados nas cinco dimensões 

dos sonhos apocalípticos 

da vista vesga 

cansada de sentir tanta coisa inominável 

cansada de respirar um pouco mais profundo e encontrar uma ferida velha me olhando com olhos de gambá 

cansada de achar que a chuva é sinal expresso dos índios me dizendo para não sair de casa mas Maria disse sim preciso dizer sim não posso ficar pra sempre escondida dentro da caverna

cansada de fazer planos para descobrir um dia depois que planos são estratégias de gente pagã 

cansada de sentir calor frio calafrio arrepio náusea e dor de barriga 

cansada de ouvir música e acreditar na premonição óbvia de todas as letras 

de ler um livro e jurar em cima de cada palavra 

de escrever um texto e ter fé cega que as minhas próprias palavras são um oráculo do futuro que vai chegar daqui a três minutos mas não chega

estou me arrastando feito lesma pelas ruas de sempre do mesmo bairro onde moro há vinte e seis anos 

a face está envelhecendo

vejo em clarão

estou cansada de guardar segredos escondidos pelos cantos porque não posso dizer a verdade de uma verdade que sonhei 

prefiro carregar a sacola pesada de sonhos secretos infundados 

a dizer apenas desculpa foi engano

cansada de ver escombros paredes sendo demolidas construídas pintadas 

cansada de não entender o mistério do tempo 

cansada de achar mais um parente para pedir perdão e seguir a vida 

se estou viva é por obra do divino 

estou delirante da obra 

e o divino me perdoe também 

queria só uma gripe simples agora para me preocupar

cansada de fazer coisas que de tão indecorosas não mereciam ser descritas mas ainda assim as descrevo 

com manobras de pulso e linguagem emprestada das marés

para dizer que sou poeta e vejo o que ninguém mais vê 

mentira 

sou doida tão doida que coloco em risco minha vida todo santo dia quando desprezo a realidade porque ela simplesmente não me interessa 

cansada de tropeçar em pedregulhos que brotam do solo do asfalto por estar com a cabeça constantemente voltada ao céu 

cansada de me alimentar de palavras e sentir fraqueza por falta de proteína no corpo 

cansada de analisar analisar até o que não é analisável é apenas fato fruto daquela realidade que me devora enquanto finjo que ela não existe 

cansada dos anjos santos demônios toda essa gente que perturba a cabeça de gente doida como eu

cansada dos mestres gurus padres gente espiritualizada demais me deixa exausta 

cansada da sutileza delicadeza entrelinhas indiretas energias que se danem 

estou cansada de tirar catarro secar o cabelo 

passar creme creme creme 

não há entendimento no mundo que sustente a necessidade imoral de tanto creme

estou cansada de passar tempo em excesso pensando na morte da bezerra nem depois de morta deixo a coitadinha descansar 

cansada de tentar achar a resposta o caminho o sentido a tradução e o sinônimo 

cansada de estar atenta alerta vigilante desperta 

quero uma frieirinha no pé uma crise de espirros um pouco de caspa só isso 

cansada de me conectar com algo maior sublime perfeito sobrenatural que não sei onde está nunca vi

estou enlouquecendo de cansaço de amar o quanto amo todas as coisas que não são visíveis 

cansada das frequências 

todas 

coisa chata é frequência preciso descansar e a frequência me assombra incansavelmente 

cansada de esperar a promessa o processo a entrega a rendição o milagre o novo a pessoa nova que não vou ser pois doida demais para qualquer coisa que envolva ir no supermercado comprar comida colocar roupa no varal retirar o lixo limpar a casa 

cansada do espelho objeto 

do espelho outro 

do reflexo trincado 

cansada do bichinho ardiloso chamado celular grudado na minha mão carcomendo a humanidade que resta

cansada cansada cansada 

estou cansada de respirar meditar rezar 

desculpa deus se o seu propósito era outro 

sou fraca pecadora desajustada das idéias estou cansada mas tão cansada entreguei a maçã do rosto a polpa do lábio entreguei tudo nas mãos da minha mãe 

você nasceu cansada ela vai me dizer 

e vou concordar 

mas ela vai dar um jeito porque ela sempre dá

.

(vou escrever poesia no blog amo poesia)