segunda-feira, 16 de maio de 2022

Elogio Dos Sonhos: Um Poema de Wislawva Szymborska



Nos sonhos
eu pinto como Vemeer van Delt.

Falo grego fluente
e não só com os vivos.

Dirijo um carro
que me obedece.

Tenho talento
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
não menos do que os veneráveis santos.

Vocês se espantariam
com a minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.

Ao cair do telhado
desço de manso na relva.

Respiro sem problema
debaixo d'água.

Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.

Faz alguns anos
vi dois sóis.

E anteontem um pinguim
com toda clareza.

(Imagem da obra girl with the red hat de Vemeer van Delt, via)

terça-feira, 10 de maio de 2022

O Silêncio De Um Domingo Extraordinário



















13 de junho de 2021

domingo


Depois de comer e beber todo sal da Ilha na noite passada, fizemos um mutirão bastante eficiente hoje de manhã para limpar os restos mortais da reunião de ontem. 

Acho que sim, reunião é um bom nome para o que aconteceu nesta casa, mulheres reunidas em volta da mesa com o útero pegando fogo é um momento a se considerar seríssimo, por assim dizer. Passei um café em seguida, ovos mexidos e pão com bastante manteiga na chapa

Foi assim que conseguimos ressuscitar

João, nosso vizinho do lado direito nos convidou para um churrasco de almoço, quanta gentileza dele, pensei, uma carne na brasa com vegetais junto com o solzinho maroto de inverno e boas pessoas era tudo o que eu não sabia que queria

Passamos algumas horas em sua casa em transe sincronizado

palavras à toa não foram ditas

Sara, a vizinha do lado esquerdo, segundo disse, tem vivido uma fase introspectiva e passou o dia todo 

sorrindo consigo mesma

João, naturalmente de poucas palavras, se ocupou em preparar um churrasco tão perfeito onde não caberia de fato mais nada

tampoucas palavras o cheiro irradiado da churrasqueira dizia o alfabeto inteiro

Me plantei no sofá enquanto o sol se fez presente e não arredei a bunda por nada
nada tinha mais urgência naquele momento do que a correspondência 
do domingo com o sol com o sofá com os corações emitindo auras

será que alguém estava percebendo? Poderia morrer e morreria fatalmente satisfeita

José, que tem por esporte filosofar sobre a vida, se ateve à filosofia do estritamente necessário para não quebrar o fio filosófico de um domingo que nunca existiu

Matheus, um ser humano poeta intrigante que sempre desconfiei habitar uma dimensão diferente ou todas elas ao mesmo tempo, estava em trânsito de corpo

Quase pude tocar no ar 
a beleza a história a tristeza
as frases que poderiam ter sido ditas mas não saíram do pensamento
o ponteiro petrificado de susto do relógio

Não lembro ter vivido isso antes, uma concreta sensação de não estar no tempo datado senão num tempo criado por uma comunhão de almas coexistindo.

Terminamos o domingo no Pântano do Sul olhando as ondinhas miúdas
o mar de barcos de pescadores 
as cores frias do inverno
Comendo peixe, camarão e tomando cerveja


Um presente silencioso enviado pelas bruxas faceiras da terra do nunca

Não duvido




segunda-feira, 9 de maio de 2022

Sozinha em Buenos Aires Que Delícia
















































Minhas maiores lembranças são das ruas por onde passei caminhando com o objetivo único de olhar 

olhar tudo só olhar olhar e perceber o que me forçava a apertar o passo ou diminui-lo

lembro bem do restaurante onde jantei duas noites seguidas e na segunda me senti filha da casa distribuindo um meio sorriso charmoso aos comparças

lembro da cafeteria que ficava em frente ao prédio onde tomei café de forma exagerada só pra fazer render a intimidade














Conheci um fotógrafo muito gente boa que além de ter registrado o meu espírito de mulher livre-nostálgica-solitária em Buenos Aires me levou para conhecer lugarzinhos secretos bem do jeito que eu gosto
















Foi tudo tão bom ao ponto de me fazer acreditar que acordaria de manhã falando espanhol, mas a verdade é que todas as experiências daquele ano tiveram o frescor bom das descobertas, como se uma cortina se abrisse aos poucos e o segredo fosse finalmente revelado, ou quando você se dá conta de que é capaz de fazer muito mais para além do que o medo permite. 

Ou quando você se vê sozinha, entre milhares de outras pessoas também sozinhas, e percebe o grande movimento que é feito no movimento de cada pequeno passo. 


O ano era 2017 livre como uma passarinha.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Você Tem Tempo?




Eu tenho tempo. 

Eu escolhi dar dois passos pra trás de uma vida que, possivelmente breve, iria me engolir.

Escolhi ter tempo. Inclusive para escrever este pensamento.

Ao que tudo me remete, ter tempo significa poder observar mais, com certa calma, porque a correria, que deus a tenha, eu não quero não.

Andar a pé pela cidade, utilizar o transporte público, parar em filas, sentar na mesa do bar, frequentar lugares diversos, tudo isso me possibilita a especulação da poesia da vida real, bem de frente, bem dojeito que eu acho que é. 

Me interessa a forma como os estranhos dizem "Saúde" uns pros outros, ou ajudam a embalar a compra no caixa do supermercado, nos socorrem no meio da rua com o limão que pulou da sacola. Na maioria das vezes, são minúsculos os gestos, percebo que ninguém quer machucar ninguém.

Só queremos o sorriso da moça da cafeteria e dizer obrigada com um sorriso de volta. Temos tão pouco uns dos outros a não ser esses rápidos momentos de troca. Eu não sei nada sobre você, imagine apenas que essas pequenas poesias do cotidiano sejam a morada do sublime que habita em nós, a hora certa e o local certo onde a mágica acontece.

Quando temos a chance de dizer: "Senta aqui no meu lugar". "Pode passar". "Gostei do seu cabelo". Com a eternidade de um segundo do nosso tempo.