sábado, 10 de outubro de 2026

Possibilidades - Wislawa Szymborska

Prefiro o cinema.

Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos sobre o Warta.

Prefiro Dickens a Dostoiévski.

Prefiro-me gostando das pessoas

do que amando a humanidade.

Prefiro ter agulha e linha à mão.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não achar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as excessões.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar sobre outras coisas com os médicos.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrevê-los.

Prefiro, no amor, os aniversários não marcados,

para celebrá-los todos os dias.

Prefiro os moralistas

que nada me prometem.

Prefiro a bondade astuta à confiante demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados aos conquistadores.

Prefiro guardar certa reserva.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro os contos de Grimm às manchetes dos jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães sem a cauda cortada.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui

a muitas outras também não mencionadas.

Prefiro os zeros soltos

do que postos em fila para formar cifras.

Prefiro o tempo dos insetos ao das estrelas.

Prefiro bater na madeira.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro ponderar a própria possibilidade

do ser ter a sua razão

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Do livro [poemas] página 87


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Deus Que Alegria Encontrá-lo Sozinho

Posso te fazer uma pergunta?

Pude perceber seus olhos relanceando as esquinas como se procurasse por onde fugir

Você me encontrou há muito tempo atrás

Quando eu era uma mulher com ares de bomba

Anônima. Segundo as más línguas

Agora sou mulher refeita, já com tufos de cabelo branco

Embora tu me tivesse protegido de silêncio e afeição desde a primeira vista

até o presente, nunca me disse eu te amo

- E porque seria necessário trazer ao inconstante reino da linguagem sentimentos tão profundamente ardentes, tão quietos na mudez do coração?

Sei e sinto que me ama mas meus ouvidos datados de poluição querem soletrados esse amor

- Eu a amo, sempre

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Lápiz Y Corazón En Mano










Nas palavras do artista:

No quiero que mis imágenes hablen por mi, sólo que acompañen mis pensamentos

mis palavras

para dejar que los demás encuentren los suyos

Quiero cruzar miradas

respetar espacios

plantear preguntas

reflejar momentos...

Quiero hacer pensar qué es lo verdadero, emocionar

hacer tambalear los cimientos de lo humano, narrar la historia que nos hace comunes

iguales

Assistir al estreno de una obra en cada imagen

con la ilusión de ese momento mágico en el que se abre el telón

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Que lindo! 

Tenho um fraco por tudo aquilo que de tão singelo chega a doer. Vejo essas ilustrações e palavras do artista Guridi e sinto dor. 

Aquela dorzinha que diz: Calma, isso é tudo.

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(via)




terça-feira, 6 de outubro de 2026

Nada É Mais Fácil Do Que Miojo

 (escrever à mão para enlouquecer pequenininho)

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O papel está em cima da mesa
Faço margens e linhas coloco um pouquinho de água
Só um pouquinho, no potinho de tinta
Com a espátula encardida de plástico mexo até dissolver as bolinhas de tinta
Escolho o pincelFaço testesA mão despedaça
Estremece lá fora o mundo fascinante
A respiração se agita as margens restritas as linhas balançam

Escrever à mão não leva ninguém a lugar algum

Escrevo para não sair do lugar, inutilmente tentar pegar o que acontece
Escrevo a mão para desenhar repetidamente coisinhas miúdas. Tremer. De frio
Emoção. A mente começa a tremer de repente

O pincel muito fino
A forma sofrimento
Redesenhar espaços de cabência para coisinhas atrevidinhas

Apagar as marcas

Romper as margensEngolir as linhasRespirar com a barriga

Rezar

Avolumar o trabalho do respiroAumentar a extensão da fé
Tornar memorável o branco do papel, o branco da vertigem
Mais uma tintinha, mais um cadinho de águas, mais uma mexidinha
Pincel grosso de modo que as palavras seguissem umas às outras

Soa o apito. Cuidara tanto para que não explodisse, nada parecia ter se movido

A mão Semi duraArespiração Semi cortadaA boca Semi sorridente
Os traços pequeninos ocupam espaço a passos de tartaruguinha
Mergulho o pincel na tinta uma vez, duas vezes, vinte e cinco vezes

RepetiçãoExpiração

Se com as mãos eu vestisse as tuas palavrasTal se tornariam verdade
Olho de perto de longe de perto de longe - de amor e revolta
Um corpo palavreado estático bem na minha frente

Fatos irredutíveis

Escrevo a mão feito doida para ampliar a coisa humana menor que existe
Feito doida sinto o estrondo da eternidade desenhada

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Não Posso Dar Notícias De Qualquer Outro Fronte





Joan Didion - The Center Will Not Hold (2017)

É um documentário que escanea o pensamento mágico da escritora Joan Didion - já de cara parafraseando o seu livro mais famoso: O ano do pensamento mágico (2005). 

Mas diferente do livro que aborda um período específico de sua vida, de sucessivas tragédias, a morte repentina do marido seguida pela morte da filha do casal, o documentário pretende clarificar o pensamento de Joan.

Quem é a mulher questionadora que criou um jeito totalmente novo de escrever e fazer notícia?

Joan metia o nariz em assuntos espinhosos, como política, que não eram ditos pelas mulheres muito menos publicamente.

Ela se colocava no meio da pauta e emitia opiniões.

Os Estados Unidos ficaram de queixo caído com a força demolidora dessa mulher pequenininha. 

E é essa mesma mulher, californiana da beira da praia, desdobrando seus próprios pensamentos, quem conta a história que ouvimos no documentário. Ótimas reflexões num clima de cafezinho no fim da tarde com uma amiga inteligente.

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