quinta-feira, 14 de maio de 2026

Um Conto Sobre Sua Letra Torta

Marieta querida, você há de me compreender, se não você, estou perdida, não digo isso pela nossa amizade de muitos anos, pois as amizades de muitos anos tem a ver com a validez das coisas. O que vou lhe dizer é com intimidade que digo, é mortal sustentar qualquer mudança de vida diante de duas batatas de olhos que te conhecem a fundo, antes de você mesma se conhecer. O outro de muitos anos carrega a poeira de quem você foi e nada será feito por isso. 

As relíquias são mantidas diante dos fatos porque convém, porque é muito triste matar cada instante que em si mesma já não é mais válido. 

Mas com você é diferente, Marieta, eu gosto da nossa amizade de muitos anos porque a sua alma é boa, diferente duma outra que conheço e de tantas outras que vagueiam pelo asfalto durante o dia. Gosto, inclusive, da sua angústia quieta de não saber o que fazer e somente por isso permanecer no mesmo lugar. Você sempre me diz para esperar o sol nascer amanhã, para dormir um sono quente, para ir a igreja desvagar - você sempre, sempre me diz uma palavra, e ela é sempre delicada. As minhas pernas não fazem o mesmo por mim. A minha alma, de quem caminhou sozinha a estrada durante a madrugada, tampouco. O meu espírito vagou, Marieta, ao ponto de você saber mais de mim do que eu poderia por impulso presumir. Me diga você algo sobre mim. Sei onde fica o quarto, a padaria e a rodoviária, mas as sinapses do meu cérebro perderam o fio da conexão e, por isso, a comunicação entre os neurônios está difusa, não conclusa, e alheia demais. Ando tendo, também, ausência de querer. Quem disse tudo isso foi o médico que evitou me olhar nos olhos. Tentei por duas vezes encontrar os dele sem êxito. Escreveu trêmulo sua letra torta, o meu estado, e me entregou um papel dobrado. 

Você me palavreou melhor, Marieta, estou mesmo doente é de desamor. 

Outros estão dizendo que estou oprimida, o que pra mim não significa absolutamente coisa alguma, vou olhar no dicionário o que isso quer dizer. Sim, eu vou. Vou também passar um tempo em Madagascar. Na esperança dos baobás gigantes devolverem o meu espírito. 

Esse negócio de boa intenção que você vive me dizendo, Marieta, é feito mexerica que passou da vez, até entendo um pouco, sinto o bem quando o mal leva, como o caldo rançoso da fruta que já não é, mas enquanto sinceridade, só tenho uma, não duas, intenção na cabeça. Eu quero, Marieta, que todos se explodam, de forma igual, pelos ares, não consigo pensar em nada tão bonito. E esperar o sol nascer amanhã como se nada tivesse acontecido além de mais um dia. Aquele inchaço já não me preocupa mais, olho para os tornozelos redondos e me lembro de ti, da sua calma, que fala cada hora uma coisa, quase sem querer ser ouvida, com a voz cheia de mel. Uma grande explosão, penso eu, seria o suficiente para desencadear a validade da criação.

Há dois dias passei na Livraria Luiza, aquela que fica dentro do CineLuiza, naquela ruinha do centro, e toda santa vez fico me perguntando a mesma coisa: Será que o CineLuiza paga glória ao Chico? Que Luiza é essa? Se eu fosse escritora, Marieta, me enforcaria agora. Não consta nos anais da minha condição humana conviver com o fantasma dos versos de Luiza me atormentando o desamor. Prefiro não saber nada sobre Luiza. Amo a criação à medida que ela não me ama. Que voe pelos ares o Chico também.

Vem cá, Luíza, me dá tua mão

O teu desejo é sempre o meu desejo

Vem, me exorciza, me dá tua boca

E a rosa louca, vem me dar um beijo

Tudo culpa dos livros, Marieta. Todos eles chatos, chatíssimos, chatérrimos, sem amor, desamor, sem vontade de amar, deus que me socorra, desse jeito acabo perdendo o agrado pelas palavras e fico com essa ausência de querer.

 Mas o problema, porque isso sim é um problema, é que eu quero muito.

 Tudo. 

Tem alguma coisa transfigurada neste diagnóstico. Eu sei que você não concorda comigo, nenhuma vulgaridade te atinge, Marieta, sua alma é aristocrata, a minha, vagabunda. Eu quero ler uma história que ainda não sei qual é, não sei onde se esconde, história de gente que poderia ser eu ou você, que se confunde de existir, que vive com a cabeça enfiada na terra, come um docinho escondido para não contar a caloria, suspira longamente em voz alta e chora, gente humana capenga de amor. 

Estou com as têmporas inflamadas de tanto nervoso. Você viu. 

Eu quero histórias que não venha com inteligência de dosador, tipo aquele cacoete desagradável da sua tia, coitada, ela está sempre fingindo, parece até um fantoche de si mesma, finge saber mais do que sabe no entanto só fala advérbios. Imagine você uma história que atira no primeiro parágrafo, na quarta ou quinta linha, trechos de um poema em línguas estranhas.

Imaginou? 

Alguns acharão pretensioso demais, mas não eu, vou me sentir tão analfabeta ao ponto de continuar lendo por pirraça, até entender qualquer coisa. Foi exatamente isso que pedi pro Paulo, lá da Luiza, um livreto de arrepiar o ventre. Ele ficou me escutando com cara de distância, tinha umas olheiras arroxeadas tão fundas seus olhos pareciam um deserto, depois balbuciou algumas perguntas avulsas - eu não gosto de scotch, nem com gelo nem sem gelo, o que isso pode influenciar na história que quero ler não sei. O Paulo não está bem, pegou na prateleira Apenas Árvores de uma escritora que me foge o nome agora, e apesar desse nome apoético, levei. Em consideração ao Paulo. Depois fui saber que sua esposa havia deixado a cidade e a casa, Paulo se incluiu na deixa porque nem bilhete ela deixou. Mas ele garantiu que vou me arrepiar em Madagascar. 

Em Agosto nos vemos, Marieta, eu volto porque não tenho mais preocupação com o futuro, ele é meu enquanto eu viver, não estou fugindo, estou indo de encontro aos baobás milenares de Madagascar, aliás, eu só sei, em todas as circunstâncias, que a tecnologia ainda não atingiu os baobás. 

Eu volto.

Meus sinceros sinceros, Maria Joana

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Como Se Tudo O Que A Gente Sente Estivesse Em Ordem

Um dia, pouco antes de partir

Escrevi de punho a parede da sala inteira

De improviso a mesa virou andaime

Suei o sovaco feito cavalo bravo

Tremi as pernas, tremi o coração

Deitei no chão para sentir ao longe a estrada

A história pouco linear já estava escrita

Um dia, sem pedir licença ou perdão, voltei

Ali estava, dentro daquela página descomunal

O amanhecer palavreado estático

Gozado e improvável

Vou volto centenas de quilômetros

Da sala pro quarto até o impossível

As palavras que tantas curvas fazem

Sem ponto final ou vírgulas

Agora dormem sem pecado

Em Belo Horizonte era Outubro de 2020

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sexta-feira, 24 de abril de 2026

O Que Eu Quero dizer Quando Digo Eu?

eu rato eu luz eu quem sabe eu fui eu talvez eu quero eu sinto

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eu andando pelo mundo

eu contra um

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eu não eu fui eu volto eu aprendo eu admito eu desaprendo

eu acredito eu vejo eu sexo eu bebo eu desfaço eu costuro

eu pinto eu escrevo eu bordo eu escuto eu lavo eu passo eu cozinho eu vomito

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eu criatura

eu olhando com raiva

eu amava

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eu espirro eu volto eu falo eu trago eu cuido eu molho

eu poderia eu quisera eu pudera eu te amo

eu esqueço eu não consigo eu perdoo eu sopro

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eu entrego

eu grito eu volto eu céu 

eu preciso que digam

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eu olho eu beijo eu canto eu desafino eu desatino eu procrastino eu penso eu embolo eu perco eu rumo eu mato 

eu te abraço eu te cheiro eu te sinto eu te vejo eu te quero eu te lua eu não posso

eu calo eu morro

eu me mordo à toa

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eu sonhei eu passado eu presente eu futuro eu no escuro 

eu danço 

eu tropeço eu levanto eu chego eu aqui eu lá longe eu você

eu sei eu tudo eu santa eu demônio eu sirvo eu faço eu café eu bolo eu nós 

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eu eu eu eu eu deus

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eu não quero eu finjo eu pretendo eu respiro eu vou embora eu crio eu invento eu lamento (o choro boliviano)

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eu ela eu ele eu toda eu maria eu cretina eu sedenta eu velha eu azeda

eu porque eu onde eu todavia eu coitada eu história eu nuvem eu a pé eu tão linda eu jazz eu domingo eu domingo eu alucino 

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eu quero mais

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eu nado eu peixe eu resvalo eu infinito 

eu peito

eu dente

eu unha

eu sangue

eu? disse

que sim

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eu estava no apartamento

(atônita)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estou Sonhando Ou Isso É Mais Que Um Sonho?

 De vez em quando sei lá de onde

Vem um cheiro que não consigo entender
Já aconteceu várias vezes neste lapso de tempo
Estou na sala lendo e sendo cúmplice das horas

Não sei se é ovo frito
Não sei se é madeira envelhecida
Não sei se é doce de maçã
Ou vinho deixado no copo

Não sei se entra pela porta da varanda
Ou exala dos espíritos

Mas sei que quando bate o odor
Esse que me aquece as entranhas
Me sinto Scarlett
Aconteceu de novo agora
Não sei se é o ventre das ostras

Ou geléia de jabuticaba

É como se me fosse oferecido um pequeno frasco de paraíso
E eu pudesse reconhecer
Daqui do meu sofá de couro marrom
A face enternecida da felicidade

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terça-feira, 14 de abril de 2026

Em Silêncio

Se tivesse que escolher entre duas dores

para conviver com uma delas 

para o resto da vida

Escolheria a dor de amar

do que a dor de não amar

Para a dor de amar poderia escrever em letrinhas articuladas

sobre uma folha de papel com meus próprios dedos

O que há de mais belo

Não amar não me valeria a dor em nada

Seria como ler um livro do idioma japonês

Estou no escritório

- varrido pelas asas de milhares de aleluias criando a primavera

Além de mim vejo aqui outra mulher

Mas nada posso dizer sobre o seu destino

A rainha de copas me olha sapiente

A sala em pleno recital

Todos sabemos que o amor move o mundo

- não há o que demova gente que tem amor no coração

Em qualquer cidade do mundo agora existe um amor

com nome e cara de amor

Em silêncio dentro de um carro

Sou capaz de mistificá-los todos

a obra a mesa o café o cabelo

espaguete a bolonhesa

chá de carqueja com hortelã

a alegria a música

árvore janela

E num dia como hoje descubro o estilhaço das cartas

O que eu quero mesmo é ser beijada no canto da nuca ali

onde nasce o sol

como amor e ganas

falar palavras que nunca falei

me janta

me fode

me joga no mar

com ternura e olhar perdido passeando pela intimidade alheia

O lábio inchado de ânsia e palavras adocicadas

estremece de amor 

o amor mais duro

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

Francisco

Um amor que já não me escaparia

Porque ao acaso seria mal interpretado

Não sabia rigorosamente nada sobre o amor

Da matemática muito pouco ainda

Uma ilusão

Um amorzinho com um nome dito

Um amendoim evocando um banho de açúcar

O perfume acabara por confundir

Gosto de sentir os meus olhos olhando inconvenientemente

Para os olhos de Chico Buarque

É só um jeito de amar

Não mata nem cansa

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

* Ainda É Cedo Amor *

 



E aqui estamos a vida se deu assim

Um grande número de nuvens no céu pedem para que decidas meu amor

A história necessita ser reconsiderada

O azul se alarga um rato mas nesta manhã de terça-feira

A poesia sees the world

Sinto a esperança estampada na face dos poetas

dos cozinheiros e das senhoras

Estão todos a planejar uma revolução interna de humanidades

Veja como são felizes

Não posso imaginar o rumo que isso irá tomar

Na alegria firmada no minuto atrás

da palavra desayuno

de color de rosa

la letra L para London

A fragilidade tocando o traço entre os amantes que acabaram de se conhecer

O que o mundo espera from these two people?

Existe alguma valid reason para o acaso dos encontros?

Vou te dizer tudo tudo tudo

Sobre todas as coisas

And Laugh

I do believe meu amigo

Na beleza e no fogo on this open subject

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sexta-feira, 6 de março de 2026

"The Filet Mignon and I"


Muitas vezes me perguntei

porque o desolamento ronda a consciência 

de quem segura o celular

diante de um prato de comida

Perguntei sem querer saber a resposta 

pois peguei o celular 

e vi a sua mensagem

Eram palavras aquáticas

Demorei um pouco para entender

confesso

Uma declaração de amor que poderia ser entitulada

"The Filet Mignon and I"

visto que tenho um no meu prato

E palavras de amor refrescando a questão humana

mais profunda que existe

Evito ficar olhando para ela o tempo todo e perder a graciosidade em falar

do nosso amor

(em março o ar se torna úmido bem desse jeito)

Me chamou pelo nome e botou uma vírgula logo em seguida

Você é linda do seu jeito como a lua

(respiração profunda aqui)

Vou colar o nariz no espaço entre os teus seios

Vírgula de novo 

Mesmo que isso seja estúpido de relatar

Fechei os olhos e permaneci com eles fechados

Até atinar que poderei caligrafar

finalmente o teu nome

Com letras enormes e atraentes

como escrevem os cegos e os apaixonados


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quinta-feira, 5 de março de 2026

Orquestra de Três Gaitas

Ouvindo a minha chuva

Escovando o meu dente

Abusando do meu romance

Apenas para certificar que a quantidade de chuva que caiu na terça-feira

foi despudorada

Deu pra pensar de tudo 

minha Santa Maria Bonaire


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quarta-feira, 4 de março de 2026

Bar Do Tadeu

 A cozinheira praguejou:

"Filha da mãe, porra, cortei meu dedo,

graças a Deus que foi na mão direita,

vão me dar folga por uns quatro dias."

A vida inteira pelejo pra ser santa

fazendo força pra fazer silêncio

e justificada está a praguejadora,

inocente como um tambor

que não tem culpa por repercutir


Adélia Prado

terça-feira, 3 de março de 2026

O Artista Que Engoliu o Mundo


A arte absurda do escultor austríaco Erwin Wurm me faz sorrir. Tenho certeza que o próprio absurdo sabe que não tem a menor condição... 


Site

A Vida Foi Boa Pra Mim

 Seus lábios são belíssimos

Sorriso

Sorriso

Beijo

Um pouco mais

Sorriso

Tchau

Sorriso

Sem nome


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segunda-feira, 2 de março de 2026

Letras & Lego


 

Muito inspirada para transformar minha letra num tipo gráfico de verdade, principalmente depois de ver que traços pouco elaborados como são as letras podem compor universos inesperados e diverdtidos como visto neste projeto incrível do design Pedro Neves com a Lego.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Querido Amigo Eu Tenho Um Vizinho Que Toca Gaita


Quão agitado você tem estado no momento? 

Escrevo agora pois gosto de escrever-te nas horas agitadas. Não tão agitadas quanto as águas do Campeche, você se lembra, além de gélidas, são águas favoráveis para troncos robustos. Tampouco calminhas, como as águas de Trancoso, marola de brisa leve, boa para pensar na vida. 

Te escrevo entre uma pernada e outra, um deslize e um achado. 

Te escrevo a qualquer dia a qualquer hora, um pouco mais concentrada, apenas para dizer-lhe que tenho um vizinho que toca gaita. 

E você certamente me perguntaria sobre o cheiro doce agridoce do creme de cabelo sobre o pernil assado. 

Logo, essa é a deixa: o movimento dialético vai se sobrepondo aos poucos, em circunstâncias que deságuam num verde tom de água tão lindo, mas tão aguado, me resvalo de acreditar na maracutaia das muriçocas. 

Mas não. Não é o caso de se preocupar, garanto.

Te conheço, meu amigo, quando não manda notícias é porque está escrevendo novos ensaios, no seu tom chistoso, com as mesmas palavras de sempre, as coitadas cotidianas, cada hora num roteiro novo. 

Assim, desse jeito, você não me ajuda muito. 

Às vezes consigo entender, juro, mas nem todas. Quisera ter comentado com você antes desta carta chegar, sobre a raiva, acumulada quando você me fala, repete, altera a voz sem triscar: 

Chega, Roberta. 

Sinto a cólera se lançar no espaço injusto do descontrole. Depois passa, demora, vira só uma tristeza avinagrada. Fajuta. Tão fajuta não sustenta um adendo. Mas persiste pelo menos ao longo de um dia. 

Já falamos sobre isso, um dia é muito tempo para as noites absurdas. 

Quem disse noites absurdas foi um amigo, cuja jabuticaba em cada um de seus olhos encaçapa qualquer status, principalmente os não perceptíveis, os mais absurdos e os mais serenos. 

Meu amigo se chama Filipe Sereno. 

Suponho que as estrelas se juntaram em reunião extraordinária para definir a sua graça. Quando conhecer Filipe Sereno saberás exatamente que o menininho poderá tocar gaita, falar em mandarim, contorcer o corpo e construir cidades. Quem sabe até um mundo novo ele dará um jeito de criar.

Menos injuriado

Por falar em gaita, o vizinho está tocando neste exato minuto, cinco andares sobre a minha cabeça

 jazz

entrando de fininho pela janela, tragando o ruído mal cheiroso das ruas do centro da cidade, me perdoe falar assim

mas o que estou sentindo agora é saudade. 

Principalmente depois de ter encontrado Filipe Sereno e Francisca, a cadela que por descuido não pariu minha barriga. 

Nesta altura que atinge a saudade, ter um vizinho que toca gaita é um blefe, você pode estar pensando. Visto que ter um vizinho que estica suavemente as colcheias exatas, colocando na terça-feira um pouco de férias, aparenta mesmo história de malandro em noite de lua cheia. 

Contudo parece-me legítimo 

viver a história e contar a saudade

ai
ai

Te parece também? 

Estou com saudade da semana passada, de algo absolutamente vivível

Estou encucada com uma coisa, meu amigo, porque férias é uma entidade que me encuca, o conceito e a prática, a expectativa, realidade e tals

O que é férias para você? 

Eu não sabia, ainda me falta saber ao certo, mas arrisco sem pretensões de gol, dizer que as minhas férias perfeitas existe. 

Lá o sol brilha quando bem quer. Sem contrassenso. 

O verde, aquele verde tristonho que não combina com o azul, ele não existe. O verde das férias perfeitas é um verde desbotado pelo tempo, vibrante de sombra e água fresca - agora tomo nota que sombra e água fresca não é conceito de estilo de vida de contador de histórias, evidente por certo, ao contrario do que imaginava, recebera até com naturalidade.

Havia deixado de ser um insulto, como se passasse a miopia e visse claramente o mundo. O relance mais simples e profundo que tivera da vida como era e como poderia ser.

Você, meu amigo, por acaso já encontrou suas almas gemelas durante as férias? Pois, lhe digo que eu sim. Cada inspirada de ar é como uma vida inteira nova em poucos dias. Que já existia mesmo quando nem se falava em férias. 

Nas minhas férias perfeitas o dia é domingo, mas já era noite, de lua cheia alaranjada radioativa, hora de missa, cantoria e velas acesas, na ponta da frente da igrejinha branca, o mar, de banho tomado para ver deus.

A tudo diria sim, sem dar a menor importância.

Mande-me cartas, querido amigo, quando quiser, a saudade anda vivendo os seus dias gloriosos.

Com amor

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Esta história foi originalmente escrita e publicada no dia 24/06/2024 na antiga newsletter beta.