sexta-feira, 6 de março de 2026

"The Filet Mignon and I"


Muitas vezes me perguntei

porque o desolamento ronda a consciência 

de quem segura o celular

diante de um prato de comida

Perguntei sem querer saber a resposta 

pois peguei o celular 

e vi a sua mensagem

Eram palavras aquáticas

Demorei um pouco para entender

confesso

Uma declaração de amor que poderia ser entitulada

"The Filet Mignon and I"

visto que tenho um no meu prato

E palavras de amor refrescando a questão humana

mais profunda que existe

Evito ficar olhando para ela o tempo todo e perder a graciosidade em falar

do nosso amor

(em março o ar se torna úmido bem desse jeito)

Me chamou pelo nome e botou uma vírgula logo em seguida

Você é linda do seu jeito como a lua

(respiração profunda aqui)

Vou colar o nariz no espaço entre os teus seios

Vírgula de novo 

Mesmo que isso seja estúpido de relatar

Fechei os olhos e permaneci com eles fechados

Até atinar que poderei caligrafar

finalmente o teu nome

Com letras enormes e atraentes

como escrevem os cegos e os apaixonados


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quinta-feira, 5 de março de 2026

Orquestra de Três Gaitas

Ouvindo a minha chuva

Escovando o meu dente

Abusando do meu romance

Apenas para certificar que a quantidade de chuva que caiu na terça-feira

foi despudorada

Deu pra pensar de tudo 

minha Santa Maria Bonaire


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quarta-feira, 4 de março de 2026

Bar Do Tadeu

 A cozinheira praguejou:

"Filha da mãe, porra, cortei meu dedo,

graças a Deus que foi na mão direita,

vão me dar folga por uns quatro dias."

A vida inteira pelejo pra ser santa

fazendo força pra fazer silêncio

e justificada está a praguejadora,

inocente como um tambor

que não tem culpa por repercutir


Adélia Prado

terça-feira, 3 de março de 2026

O Artista Que Engoliu o Mundo


A arte absurda do escultor austríaco Erwin Wurm me faz sorrir. Tenho certeza que o próprio absurdo sabe que não tem a menor condição... 


Site

A Vida Foi Boa Pra Mim

 Seus lábios são belíssimos

Sorriso

Sorriso

Beijo

Um pouco mais

Sorriso

Tchau

Sorriso

Sem nome


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segunda-feira, 2 de março de 2026

Letras & Lego


 

Muito inspirada para transformar minha letra num tipo gráfico de verdade, principalmente depois de ver que traços pouco elaborados como são as letras podem compor universos inesperados e diverdtidos como visto neste projeto incrível do design Pedro Neves com a Lego.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Querido Amigo Eu Tenho Um Vizinho Que Toca Gaita


Quão agitado você tem estado no momento? 

Escrevo agora pois gosto de escrever-te nas horas agitadas. Não tão agitadas quanto as águas do Campeche, você se lembra, além de gélidas, são águas favoráveis para troncos robustos. Tampouco calminhas, como as águas de Trancoso, marola de brisa leve, boa para pensar na vida. 

Te escrevo entre uma pernada e outra, um deslize e um achado. 

Te escrevo a qualquer dia a qualquer hora, um pouco mais concentrada, apenas para dizer-lhe que tenho um vizinho que toca gaita. 

E você certamente me perguntaria sobre o cheiro doce agridoce do creme de cabelo sobre o pernil assado. 

Logo, essa é a deixa: o movimento dialético vai se sobrepondo aos poucos, em circunstâncias que deságuam num verde tom de água tão lindo, mas tão aguado, me resvalo de acreditar na maracutaia das muriçocas. 

Mas não. Não é o caso de se preocupar, garanto.

Te conheço, meu amigo, quando não manda notícias é porque está escrevendo novos ensaios, no seu tom chistoso, com as mesmas palavras de sempre, as coitadas cotidianas, cada hora num roteiro novo. 

Assim, desse jeito, você não me ajuda muito. 

Às vezes consigo entender, juro, mas nem todas. Quisera ter comentado com você antes desta carta chegar, sobre a raiva, acumulada quando você me fala, repete, altera a voz sem triscar: 

Chega, Roberta. 

Sinto a cólera se lançar no espaço injusto do descontrole. Depois passa, demora, vira só uma tristeza avinagrada. Fajuta. Tão fajuta não sustenta um adendo. Mas persiste pelo menos ao longo de um dia. 

Já falamos sobre isso, um dia é muito tempo para as noites absurdas. 

Quem disse noites absurdas foi um amigo, cuja jabuticaba em cada um de seus olhos encaçapa qualquer status, principalmente os não perceptíveis, os mais absurdos e os mais serenos. 

Meu amigo se chama Filipe Sereno. 

Suponho que as estrelas se juntaram em reunião extraordinária para definir a sua graça. Quando conhecer Filipe Sereno saberás exatamente que o menininho poderá tocar gaita, falar em mandarim, contorcer o corpo e construir cidades. Quem sabe até um mundo novo ele dará um jeito de criar.

Menos injuriado

Por falar em gaita, o vizinho está tocando neste exato minuto, cinco andares sobre a minha cabeça

 jazz

entrando de fininho pela janela, tragando o ruído mal cheiroso das ruas do centro da cidade, me perdoe falar assim

mas o que estou sentindo agora é saudade. 

Principalmente depois de ter encontrado Filipe Sereno e Francisca, a cadela que por descuido não pariu minha barriga. 

Nesta altura que atinge a saudade, ter um vizinho que toca gaita é um blefe, você pode estar pensando. Visto que ter um vizinho que estica suavemente as colcheias exatas, colocando na terça-feira um pouco de férias, aparenta mesmo história de malandro em noite de lua cheia. 

Contudo parece-me legítimo 

viver a história e contar a saudade

ai
ai

Te parece também? 

Estou com saudade da semana passada, de algo absolutamente vivível

Estou encucada com uma coisa, meu amigo, porque férias é uma entidade que me encuca, o conceito e a prática, a expectativa, realidade e tals

O que é férias para você? 

Eu não sabia, ainda me falta saber ao certo, mas arrisco sem pretensões de gol, dizer que as minhas férias perfeitas existe. 

Lá o sol brilha quando bem quer. Sem contrassenso. 

O verde, aquele verde tristonho que não combina com o azul, ele não existe. O verde das férias perfeitas é um verde desbotado pelo tempo, vibrante de sombra e água fresca - agora tomo nota que sombra e água fresca não é conceito de estilo de vida de contador de histórias, evidente por certo, ao contrario do que imaginava, recebera até com naturalidade.

Havia deixado de ser um insulto, como se passasse a miopia e visse claramente o mundo. O relance mais simples e profundo que tivera da vida como era e como poderia ser.

Você, meu amigo, por acaso já encontrou suas almas gemelas durante as férias? Pois, lhe digo que eu sim. Cada inspirada de ar é como uma vida inteira nova em poucos dias. Que já existia mesmo quando nem se falava em férias. 

Nas minhas férias perfeitas o dia é domingo, mas já era noite, de lua cheia alaranjada radioativa, hora de missa, cantoria e velas acesas, na ponta da frente da igrejinha branca, o mar, de banho tomado para ver deus.

A tudo diria sim, sem dar a menor importância.

Mande-me cartas, querido amigo, quando quiser, a saudade anda vivendo os seus dias gloriosos.

Com amor

.

.

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Esta história foi originalmente escrita e publicada no dia 24/06/2024 na antiga newsletter beta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Poeta Conversa No Telefone Com Amor


Dulce y lejana voz por mi vertida

Dulce y lejana voz por mí gustada

Lejana y dulce voz amortecida

Lejana como oscura corza herida

Dulce como un sollozo en la nevada

Lejana y dulce en tuétano metida

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Garcia Lorca

Lovers On Film

 


Um pequeno canto na internet talvez sem saber o melhor de todos

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E ainda virou livro...

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Aqui oh

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Gorda E Viciada Em Uísque

 


Diga oi para a querida Fup - sua melhor amiga pata. Ela não sabe voar, respeita.


"Nos dois anos seguintes, ele viajou, a cavalo, pela Califórnia. Sensato não era. Três casamentos - o mais longo durou sete semanas - deram profundas dentadas nas suas economias. O jogo dava para cobrir a bebida, mas a bebida lhe provocava visões loucas. Sempre pronto a seguir sua luz interior, Jake investiu quantias generosas em aventuras altamente especulativas, aprendendo, do jeito mais difícil, que às vezes, quando se põe dinheiro na mesa, é tão somente para lhe dar um beijo de despedida."

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"Um dia, no final dos anos 1960, um hippie perambulou até o rancho. Depois de anunciar, em voz arrastada e vagarosa, os olhos no vácuo, que procurava e considerava bem-vindas todas as formas de transformação mental, e que tinha ouvido falar que Jake fazia uma bebida dotada dessas propriedades de alteração da mente, ele ofereceu dois comprimidos de LSD em troca de uma boa amostra de uísque. Vovô guinchou e deitou falação sobre como odiava as drogas e como devia atirar em sua bunda suja, cabeluda e cheia de merda por tentar corromper-lhe o neto, mas, já que era a primeira vez que alguém realmente queria experimentar o Velho Sussurro da Morte, acabou se acalmando."

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"As diferenças de temperamentos se transformaram em estilos. Miúdo gostava de pureza linear e aberta do jogo de damas. Vovô preferia o jogo de baralho com cartas marcadas, em que sua força está nos seus segredos e você voa rumo ao olho do caos montado no próprio fantasma."

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"Mas o que o deprimiu foi descobrir que tinha perdido os dois últimos dentes que se juntavam, e enquanto passava a língua nas cavidades salgadas e sensíveis sentiu uma fadiga melancólica infiltrar-se em seu sangue. Passar a eternidade desdentado era uma perspectiva lúgubre, mas, quem sabe, talvez após umas duas centenas de anos as gengivas ficassem bastante duras para aguentar o confronto com uma porção de costeletas. Só tinha que ficar quieto e ter fé, esse era o fator principal. Não havia razão para desistir. Mas estava contente porque o dia seguinte era domingo e não teria que dar aula a Fup."

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Um livrinho finiquinho para ler numa sentada e lembrar pra sempre

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FUP - uma fábula de Jim Dodge
Tradução: Melany Latterman
Amarcord - Rio de Janeiro 2024


Barata de Sacristia

Pérolas poéticas jogadas ao vento boas demais para serem esquecidas no além.

Quem disse?

Isso não importa...

depois que a palavra saiu da boca não tem mais dono

Se te servir pode pegar, são suas, as minhas já peguei...

Sem aspas:

- Num tô aguentando nem chutar uma laranja

- A cara dele conta tudo

- A mãe dele chama Reginalda sobrinha do Zé Panela

- Ele é bem saliente só virou padre porque a mãe fez promessa

- Acordar de madrugada e capinar uma rua de café

- Dobrou a defunta para gastar pouca madeira e fazer um caixão menor

- Não sei o que que eu fiz de ruim para sofrer tanto assim

- Você já comeu leite em pó com abacate?

- Tá vendo esse mosquitinho amarelo o nome dele é Fevereiro

- Ele curou o medo de assombração

- Você não me ama direito se me amasse eu estaria esperando gêmeos e não um só

- Se eu bebo meu braço fica mole parece que vai cair

- Meu café completo

- Na outra encarnação ele quer vir uma garça

- Não me tira do meu eu

- Puta que me pariu te

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A poesia é mesmo um monstro voador...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Poesia Pura



Todo crédito de beleza bondade e justiça para a criatura que me enviou esse cascalho bruto cujo nome 

não vou dizer 

por ser boa em guardar segredos 

digo apenas 

sim

.

Vale a pena correr o olho pelas próximas linhas e perder o ar por um instante


 “Affirmation” 

by Assata Shakur


I believe in living
I believe in the spectrum
of Beta days and Gamma people
I believe in sunshine
In windmills and waterfalls
tricycles and rocking chairs
And i believe that seeds grow into sprouts
And sprouts grow into trees
I believe in the magic of the hands
And in the wisdom of the eyes
I believe in rain and tears
And in the blood of infinity

I believe in life
And i have seen the death parade
march through the torso of the earth
sculpting mud bodies in its path
I have seen the destruction of the daylight
and seen bloodthirsty maggots
prayed to and saluted

I have seen the kind become the blind
and the blind become the bind
in one easy lesson
I have walked on cut glass.
I have eaten crow and blunder bread
and breathed the stench of indifference

I have been locked by the lawless
Handcuffed by the haters
Gagged by the greedy
And, if i know any thing at all
it’s that a wall is just a wall
and nothing more at all
It can be broken down

I believe in living
I believe in birth
I believe in the sweat of love
and in the fire of truth

And i believe that a lost ship
steered by tired, seasick sailors
can still be guided home
to port

O vídeo continua... estremecendo da espinha até a nuca como um insulto

E saindo pela boca

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

The Last Poets

tem dia que a palavra não desloca até o dedo

para todos os outros existe os últimos

ferozes alucinados meio zen

os esperançosos de toda manhã

os seres estranhos do reino

o maluco beleza da sociedade alternativa

cavucando dentro do corpo do porco a fim de encontrá-la

e mesmo quando não a encontra inventa

passa um café come um pão de queijo

como quem não espera nada e

de súbito ela aparece em espiral, cheirosa e graciosa

transformando o vazio em algo

é isso que os últimos poetas fazem para sobreviver

de um jeito ou de outro colocar no mundo

um mundo que não existia até então

uma justificativa injustificável

é disso que falam o tempo todo

doce de figo geléia de jabuticaba

como se fosse francesa falando palavras novas

mas é a lingua de sempre com sotaque esquisito

não tem cura mãe do céu

.

.


imagem via


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Meu Paraíso Chamado Meu Paraíso

 Já era de noitinha a boca da noite me disse 

senta um pouquinho Roberta conta pra nós o teu conto

Um canto em Veneza não teria o mesmo verso apalpado dessa conversa de um lado só

Porque serei agora entrevistada de mim mesma

Deixei que as palavras encruadas fossem levadas para a embocadura mais estreita do funil e me deixasse apenas com uma minhoca comida à espreita pela traíra mais safada da represa toda

As capivaras que não cruzaram o meu caminho possivelmente viram tudo, deixaram rastro, cada bolinha, uma a uma, sendo posta à fora

Inspirada por Paulo e Pedro preciso comunicar a boa nova 

o objetivo de tudo isso é amar 

amar como as maritacas, estridentemente

Eis aqui uma nova ave rara. Um novo estilo de gritar

Fiquei sabendo agora que São Pedro é o porteiro zelador do céu 

doutor das gentes

Pois que São Pedro me ajude com o espinho do dedo e o mistério do amor redimido

Em nome dela 

sereia metade mulher metade peixa, Iara

leve meu conto para as profundezas das águas claras. Bendita seja

Naquela mesma noite faltou luz 

calcei as sandálias acendi a lanterna e fui pra casa 

o anjo me disse que era realidade o que estava vivendo, pois pensava como criação nova que aquilo poderia ser uma visão

De todos os temores me livrou o anjo. Da feiura e da vergonha agora estou livre. Olhe a minha face descoberta, livre de toda angústia

Justamente quando já estava para ser derramada em sacrifício, escuto a voz de Paulo

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”

Posso enfim me arrumar tranquilamente com os adornos do meu gosto 

justiça seja feita o anjo não saiu do meu lado nem para um xixi, me deu força e permitiu que algumas palavras por mim fossem ditas  - e ouvidas por alguns ouvidos

Na última hora fui libertada

O azul do céu hoje está impiedoso, pergunto, mãe, isso é um sinal? 

Pedra é feminino de Pedro e eu nunca tinha pensado nisso 

Manina é o nome da vaca que não pode gestar - quanta novidade me acometeu nas férias de Julho de 2025

Jamais esquecerei do cheiro doce do pasto que banhava a represa e guardava a gruta. Uma região sem portas para o inferno

Sou feliz. Sou também filha da Lísia

E quem me disse isso não foi nenhum ser humano o anjo disse no primeiro dia das férias 

Me cabe no entanto gravar na pedra e construir a minha casa. Tenho comigo as chaves do reino

Todo amor na terra será duas vezes amor no céu 

O Meu Paraíso tinhas as porteiras trancadas para os sequestradores não entrarem

mas disseram que os seqüestradores temem a nós, da baixada fluminense, confiam na vossa misericórdia. 

Uai, eles disseram. E abriram as portas do paraíso

Nada me tira mais daqui


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Telefone Fixo Para Celular


 

Fulano está seguindo você

Fulano está on line

Fulano bloqueou você

Fulano visualizou e não respondeu

Fulano apagou as mensagens

Fulano enviou coração fogo gratidão

Fulano deixou de seguir você

Eu gostava quando o telefone tocava

Atendia Alô

Não era trote

(Era o fulano)

.

.

Mas é claro que usaria um desse

sábado, 31 de janeiro de 2026

O Seu Maurício Me Disse

Não há sábado sem sol

Domingo sem missa

Segunda sem preguiça


... e disse ainda

Aonde tá o homem tá o perigo

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cansada De Dar Dó

cansada

cansada de estar cansada

cansada dos sentimentos avoados nas cinco dimensões 

dos sonhos apocalípticos 

da vista vesga 

cansada de sentir tanta coisa inominável 

cansada de respirar um pouco mais profundo e encontrar uma ferida velha me olhando com olhos de gambá 

cansada de achar que a chuva é sinal expresso dos índios me dizendo para não sair de casa mas Maria disse sim preciso dizer sim não posso ficar pra sempre escondida dentro da caverna

cansada de fazer planos para descobrir um dia depois que planos são estratégias de gente pagã 

cansada de sentir calor frio calafrio arrepio náusea e dor de barriga 

cansada de ouvir música e acreditar na premonição óbvia de todas as letras 

de ler um livro e jurar em cima de cada palavra 

de escrever um texto e ter fé cega que as minhas próprias palavras são um oráculo do futuro que vai chegar daqui a três minutos mas não chega

estou me arrastando feito lesma pelas ruas de sempre do mesmo bairro onde moro há vinte e seis anos 

a face está envelhecendo

vejo em clarão

estou cansada de guardar segredos escondidos pelos cantos porque não posso dizer a verdade de uma verdade que sonhei 

prefiro carregar a sacola pesada de sonhos secretos infundados 

a dizer apenas desculpa foi engano

cansada de ver escombros paredes sendo demolidas construídas pintadas 

cansada de não entender o mistério do tempo 

cansada de achar mais um parente para pedir perdão e seguir a vida 

se estou viva é por obra do divino 

estou delirante da obra 

e o divino me perdoe também 

queria só uma gripe simples agora para me preocupar

cansada de fazer coisas que de tão indecorosas não mereciam ser descritas mas ainda assim as descrevo 

com manobras de pulso e linguagem emprestada das marés

para dizer que sou poeta e vejo o que ninguém mais vê 

mentira 

sou doida tão doida que coloco em risco minha vida todo santo dia quando desprezo a realidade porque ela simplesmente não me interessa 

cansada de tropeçar em pedregulhos que brotam do solo do asfalto por estar com a cabeça constantemente voltada ao céu 

cansada de me alimentar de palavras e sentir fraqueza por falta de proteína no corpo 

cansada de analisar analisar até o que não é analisável é apenas fato fruto daquela realidade que me devora enquanto finjo que ela não existe 

cansada dos anjos santos demônios toda essa gente que perturba a cabeça de gente doida como eu

cansada dos mestres gurus padres gente espiritualizada demais me deixa exausta 

cansada da sutileza delicadeza entrelinhas indiretas energias que se danem 

estou cansada de tirar catarro secar o cabelo 

passar creme creme creme 

não há entendimento no mundo que sustente a necessidade imoral de tanto creme

estou cansada de passar tempo em excesso pensando na morte da bezerra nem depois de morta deixo a coitadinha descansar 

cansada de tentar achar a resposta o caminho o sentido a tradução e o sinônimo 

cansada de estar atenta alerta vigilante desperta 

quero uma frieirinha no pé uma crise de espirros um pouco de caspa só isso 

cansada de me conectar com algo maior sublime perfeito sobrenatural que não sei onde está nunca vi

estou enlouquecendo de cansaço de amar o quanto amo todas as coisas que não são visíveis 

cansada das frequências 

todas 

coisa chata é frequência preciso descansar e a frequência me assombra incansavelmente 

cansada de esperar a promessa o processo a entrega a rendição o milagre o novo a pessoa nova que não vou ser pois doida demais para qualquer coisa que envolva ir no supermercado comprar comida colocar roupa no varal retirar o lixo limpar a casa 

cansada do espelho objeto 

do espelho outro 

do reflexo trincado 

cansada do bichinho ardiloso chamado celular grudado na minha mão carcomendo a humanidade que resta

cansada cansada cansada 

estou cansada de respirar meditar rezar 

desculpa deus se o seu propósito era outro 

sou fraca pecadora desajustada das idéias estou cansada mas tão cansada entreguei a maçã do rosto a polpa do lábio entreguei tudo nas mãos da minha mãe 

você nasceu cansada ela vai me dizer 

e vou concordar 

mas ela vai dar um jeito porque ela sempre dá

.

(vou escrever poesia no blog amo poesia)