quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Cansada

cansada

cansada de estar cansada

cansada dos sentimentos avoados nas cinco dimensões dos sonhos apocalípticos da vista vesga 

cansada de sentir tanta coisa inominável 

cansada de respirar um pouco mais profundo e encontrar uma ferida velha me olhando com olhos de gambá cansada de achar que a chuva é sinal expresso dos índios me dizendo para não sair de casa mas Maria disse sim preciso dizer sim não posso ficar pra sempre escondida dentro da caverna

cansada de fazer planos para descobrir um dia depois que planos são estratégias de gente pagã 

cansada de sentir calor frio calafrio arrepio náusea e dor de barriga 

cansada de ouvir música e acreditar na premonição óbvia de todas as letras de ler um livro e jurar em cima de cada palavra de escrever um texto e ter fé cega que as minhas próprias palavras são um oráculo do futuro que vai chegar daqui a três minutos mas não chega

estou me arrastando feito lesma pelas ruas de sempre do mesmo bairro onde moro há vinte e seis anos estou cansada de olhar para a cara do bairro cansada de guardar segredos escondidos pelos cantos porque não posso dizer a verdade de uma verdade que sonhei prefiro carregar a sacola pesada de sonhos secretos infundados 

a dizer apenas desculpa foi engano

cansada de ver escombros paredes sendo demolidas construídas pintadas cansada de não entender o mistério do tempo cansada de achar mais um parente para pedir perdão e seguir a vida 

se estou viva é por obra do divino estou entupida de qualquer obra e o divino me perdoe também queria só uma gripe simples agora para me preocupar

cansada de fazer coisas que de tão surreais não mereciam ser descritas mas ainda assim as descrevo 

com manobras de pulso e linguagem emprestada das marés

para dizer que sou poeta e vejo o que ninguém mais vê 

mentira 

sou doida tão doida que coloco em risco minha vida todo santo dia quando sumariamente desprezo a realidade porque ela simplesmente não me interessa cansada de tropeçar em pedregulhos que brotam do solo do asfalto por estar com a cabeça constantemente voltada ao céu cansada de me alimentar de palavras e sentir fraqueza por falta de proteína no corpo 

cansada de analisar analisar até o que não é analisável é apenas fato fruto daquela realidade que me devora enquanto finjo que ela não existe 

cansada dos anjos santos demônios toda essa gente que perturba a cabeça de gente doida como eu

cansada dos mestres gurus padres gente espiritualizada demais me deixa exausta 

cansada da sutileza delicadeza entrelinhas indiretas energias que se danem estou cansada de tirar catarro secar o cabelo passar creme creme creme não há dinheiro no mundo que sustente a necessidade imoral de tanto creme

estou cansada de passar tempo em excesso pensando na morte da bezerra nem depois de morta deixo a pobre descansar cansada de tentar achar a resposta o caminho o sentido a tradução e o sinônimo cansada de estar atenta alerta vigilante desperta 

quero uma frieirinha no pé uma crise de espirros um pouco de caspa só isso 

cansada de me conectar com algo maior sublime perfeito sobrenatural que não sei onde está nunca vi

estou enlouquecendo de cansaço de amar o quanto amo todas as coisas que não são visíveis 

cansada das frequências todas coisa chata é frequência preciso descansar e a frequência me assombra incansavelmente cansada de esperar a promessa o processo a entrega a rendição o milagre o novo a pessoa nova que não vou ser pois doida demais para qualquer coisa que envolva ir no supermercado comprar comida colocar roupa no varal retirar o lixo limpar a casa 

cansada do espelho objeto do espelho outro do reflexo trincado cansada do bichinho ardiloso chamado celular grudado na minha mão carcomendo a humanidade que ainda resta

cansada cansada cansada 

inquestionavelmente cansada de respirar meditar rezar desculpa deus se o seu propósito era outro 

sou fraca pecadora desajustada das idéias estou cansada mas tão cansada entreguei a maçã do rosto a polpa do lábio entreguei tudo nas mãos da minha mãe você nasceu cansada ela vai me dizer e vou concordar mas ela vai dar um jeito porque ela sempre dá

vou escrever poesia no blog amo poesia

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Depois de Tudo Ela Fugiu

Sentada no banco da praça 

Inebriada pelo domingo na Barra
Vi uma bruxa

Na casa dos seus sessenta anos - suponho

Trajava um sobretudo verde musgo antigo
cheirando a naftalina

Sandálias de plástico azul tiffany
com meias surradas

E um chapéu marrom de abas capengas
enfeitado de penas

Não foi pelas suas vestes
Tampouco pelo seu cabelo comprido
Ou pela lata de cerveja barata
A revelação de sua cidadania

Não foi

Ela é bruxa. Eu sei que ela é

Havia uma aura de sabedoria ao seu redor e adiante 
Um desdém cozido no fígado e servido no olhar
Uma apatia ornamental perante os eufóricos

Essa mulher bruxa certamente não tem vida fácil 
Sua feição dizia pranto

Mas ela sabe o que fazer com o difícil
Elas sabem
Não havia luz elétrica
Era tudo preto breu
Somente as bruxas
Sapeavam na escuridão


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Este poema foi escrito no inverno de 2021. 

A cena descrita no poema é exatamente o que vi na praça ao lado da praia da Barra da Lagoa, naquele domingo de tarde antes do jogo de futebol começar, e a gente sair rumo ao primeiro boteco onde ouvi a lenda sobre a magia das bruxas que ronda toda a Ilha de Florianópolis, contada por um manesinho local, e pude então concluir o poema. 


terça-feira, 31 de maio de 2022

O Glorioso Cafezinho Do Melhor Jeito Possível


Café é poesia na sua mais completa magnitude e você não pode discordar. Discordar de mim pode mas não pode discordar do café tampouco da poesia. 

Essas cafeteiras italiana vintage são a maior prova de amor entre a poesia e o design.

Via: BarlafusShop



sexta-feira, 20 de maio de 2022

Uma Carta De Amor Para Todos Os Escritores




Queridos escritores,

De vez em sempre me assumo pensando se vocês, especialistas em gestão de palavras, são seres de muita sorte ou de muito azar. 

É possível curar com palavras?

Nunca consegui chegar numa resposta. Sigo com a dúvida e me parece que ela será sempre o ingrediente misterioso. Ou teremos um manual de respostas apropriadas, histórias ricas, poemas profundos de amor, ou uma prescrição médica, impreterivelmente. 

Para qualquer que seja o caso: palavras, meu amor.

Coleciono seus escritos, meus queridos escritores, deveria ser mais organizada e manter todas as frases, textos, poemas, dos mais preciosos que li, num altar imaculado, mas nunca consegui, sou fruto do caos, e o que faço quando me deparo com a palavra certa é levar a mão de encontro ao peito e cavar um suspiro profundo, confesso, por vezes, uma lágrima me escapa também.

Como conseguem fazer isso com as pessoas? Como conseguem dar voz ao sentimento do mundo? Ao invés de arte, a escrita deveria ser considerada um crime. Não se pode colocar palavra na boca dos outros, não é mesmo?

Mas a vocês a permissão foi concedida, foram absolvidos...

...

Se tenho um amigo escritor, ainda que na estante, não me sinto sozinha. Não foram poucas as vezes em que cheguei em casa depois de um dia difícil e me socorri em suas palavras deliberadamente. Foram infinitos os casos que parafraseei, famosos e anônimos, na tentativa de botar emoção numa história que naufragava.


Em todas as situações estranhas nas quais me meti, principalmente naquelas onde não sabia o que dizer, procurei por você, meu escritor dono de todas as respostas, em forma de livros, revistas, jornais, bulas, frases soltas também, para conversar comigo. "O Incrível Mar De Palavras”, ou "As Ondas Que Quebram Em Textos Mágicos”, poderiam ser títulos que eu certamente procuraria para quebrar a muralha do meu próprio silêncio.

...

O cheiro de mofo que exala de suas palavras antigas me seduz e embriaga fortemente. É quando me percebo viciada e rendida, entregue plenamente ao que me possa acontecer depois: uma cartela de antialérgicos e um coração acelerado, pelo mofo sim, mas sobretudo pelo efeito, muitas vezes alucinógeno, de suas palavras.

Ouvir conversa alheia é algo que tenho certa prática, de tanto procurar pela palavra perdida acabei por adquirir esperteza. Ouvir conversas de almas escritoras que colocam vírgulas, usam palavras de viés, pausam longamente digerindo cada pingo, acento e travessão, é algo que já perdi o controle faz tempo: leva meu coração. Por contrabando ainda aprendi história, filosofia, arte, já viajei para vários lugares e vivo em estado de alerta ansiando por cada verso novo.

Que assim seja.

Sigo colada em seus passos, escritores do bem, usufruindo da graça de poder tê-los por perto.

Um mar de palavras, ah, ele não seria suficiente para dizer como  amo vocês, mas ainda assim espero que consigam imaginar. Eu realmente espero. 

Realmente amo.



segunda-feira, 16 de maio de 2022

Elogio Dos Sonhos: Um Poema de Wislawva Szymborska



Nos sonhos
eu pinto como Vemeer van Delt.

Falo grego fluente
e não só com os vivos.

Dirijo um carro
que me obedece.

Tenho talento
escrevo grandes poemas.

Escuto vozes
não menos do que os veneráveis santos.

Vocês se espantariam
com a minha performance ao piano.

Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha.

Ao cair do telhado
desço de manso na relva.

Respiro sem problema
debaixo d'água.

Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida.

Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer.

Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado.

Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época.

Faz alguns anos
vi dois sóis.

E anteontem um pinguim
com toda clareza.

(Imagem da obra girl with the red hat de Vemeer van Delt, via)

terça-feira, 10 de maio de 2022

O Silêncio De Um Domingo Extraordinário



















13 de junho de 2021

domingo


Depois de comer e beber todo sal da Ilha na noite passada, fizemos um mutirão bastante eficiente hoje de manhã para limpar os restos mortais da reunião de ontem. 

Acho que sim, reunião é um bom nome para o que aconteceu nesta casa, mulheres reunidas em volta da mesa com o útero pegando fogo é um momento a se considerar seríssimo, por assim dizer. Passei um café em seguida, ovos mexidos e pão com bastante manteiga na chapa

Foi assim que conseguimos ressuscitar

João, nosso vizinho do lado direito nos convidou para um churrasco de almoço, quanta gentileza dele, pensei, uma carne na brasa com vegetais junto com o solzinho maroto de inverno e boas pessoas era tudo o que eu não sabia que queria

Passamos algumas horas em sua casa em transe sincronizado

palavras à toa não foram ditas

Sara, a vizinha do lado esquerdo, segundo disse, tem vivido uma fase introspectiva e passou o dia todo 

sorrindo consigo mesma

João, naturalmente de poucas palavras, se ocupou em preparar um churrasco tão perfeito onde não caberia de fato mais nada

tampoucas palavras o cheiro irradiado da churrasqueira dizia o alfabeto inteiro

Me plantei no sofá enquanto o sol se fez presente e não arredei a bunda por nada
nada tinha mais urgência naquele momento do que a correspondência 
do domingo com o sol com o sofá com os corações emitindo auras

será que alguém estava percebendo? Poderia morrer e morreria fatalmente satisfeita

José, que tem por esporte filosofar sobre a vida, se ateve à filosofia do estritamente necessário para não quebrar o fio filosófico de um domingo que nunca existiu

Matheus, um ser humano poeta intrigante que sempre desconfiei habitar uma dimensão diferente ou todas elas ao mesmo tempo, estava em trânsito de corpo

Quase pude tocar no ar 
a beleza a história a tristeza
as frases que poderiam ter sido ditas mas não saíram do pensamento
o ponteiro petrificado de susto do relógio

Não lembro ter vivido isso antes, uma concreta sensação de não estar no tempo datado senão num tempo criado por uma comunhão de almas coexistindo.

Terminamos o domingo no Pântano do Sul olhando as ondinhas miúdas
o mar de barcos de pescadores 
as cores frias do inverno
Comendo peixe, camarão e tomando cerveja


Um presente silencioso enviado pelas bruxas faceiras da terra do nunca

Não duvido




segunda-feira, 9 de maio de 2022

Sozinha em Buenos Aires Que Delícia
















































Minhas maiores lembranças são das ruas por onde passei caminhando com o objetivo único de olhar 

olhar tudo só olhar olhar e perceber o que me forçava a apertar o passo ou diminui-lo

lembro bem do restaurante onde jantei duas noites seguidas e na segunda me senti filha da casa distribuindo um meio sorriso charmoso aos comparças

lembro da cafeteria que ficava em frente ao prédio onde tomei café de forma exagerada só pra fazer render a intimidade














Conheci um fotógrafo muito gente boa que além de ter registrado o meu espírito de mulher livre-nostálgica-solitária em Buenos Aires me levou para conhecer lugarzinhos secretos bem do jeito que eu gosto
















Foi tudo tão bom ao ponto de me fazer acreditar que acordaria de manhã falando espanhol, mas a verdade é que todas as experiências daquele ano tiveram o frescor bom das descobertas, como se uma cortina se abrisse aos poucos e o segredo fosse finalmente revelado, ou quando você se dá conta de que é capaz de fazer muito mais para além do que o medo permite. 

Ou quando você se vê sozinha, entre milhares de outras pessoas também sozinhas, e percebe o grande movimento que é feito no movimento de cada pequeno passo. 


O ano era 2017 livre como uma passarinha.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Você Tem Tempo?




Eu tenho tempo. 

Eu escolhi dar dois passos pra trás de uma vida que, possivelmente breve, iria me engolir.

Escolhi ter tempo. Inclusive para escrever este pensamento.

Ao que tudo me remete, ter tempo significa poder observar mais, com certa calma, porque a correria, que deus a tenha, eu não quero não.

Andar a pé pela cidade, utilizar o transporte público, parar em filas, sentar na mesa do bar, frequentar lugares diversos, tudo isso me possibilita a especulação da poesia da vida real, bem de frente, bem dojeito que eu acho que é. 

Me interessa a forma como os estranhos dizem "Saúde" uns pros outros, ou ajudam a embalar a compra no caixa do supermercado, nos socorrem no meio da rua com o limão que pulou da sacola. Na maioria das vezes, são minúsculos os gestos, percebo que ninguém quer machucar ninguém.

Só queremos o sorriso da moça da cafeteria e dizer obrigada com um sorriso de volta. Temos tão pouco uns dos outros a não ser esses rápidos momentos de troca. Eu não sei nada sobre você, imagine apenas que essas pequenas poesias do cotidiano sejam a morada do sublime que habita em nós, a hora certa e o local certo onde a mágica acontece.

Quando temos a chance de dizer: "Senta aqui no meu lugar". "Pode passar". "Gostei do seu cabelo". Com a eternidade de um segundo do nosso tempo. 



quarta-feira, 20 de abril de 2022

Dias de Abandono - Elena Ferrante






"Não sei se a reconheci imediatamente. Senti só algo como um soco no peito. Talvez tivesse percebido antes que era muito jovem, tão jovem que Mario, a seu lado, parecia um homem velho. Ou talvez tenha notado nela, antes de tudo, o vestido azul de material leve, um vestido fora de moda, daqueles que se compram nas lojas de roupas usadas de luxo, distante da sua juventude, mas macio sobre o seu corpo de ondas leves, a onda longa do pescoço, os seios, o quadril, o tornozelo. Ou talvez tenha me chamado a atenção o cabelo loiro preso sobre a nuca, volumoso e preso com um pente, uma mancha hipnótica. Eu não sei mesmo." (página 66)

.

"Tudo era casual. Apaixonei-me por Mário quando jovem, mas poderia ter me apaixonado por qualquer um, um corpo qualquer ao qual atribuímos sabe-se lá quais significados. Um longo pedaço de vida juntos, e você já acredita que ele é o único homem com quem pode se sentir bem, atribui-lhe sabe-se lá quais virtudes decisivas, e em vez disso ele é só uma flauta que emite sons de falsidade, você não sabe realmente quem é, nem ele mesmo. Somos ocasiões." (página 70)

.

"Eu, que até quatro meses atrás era só ambrosia e néctar. No momento em que me apaixonei por Mário, comecei a temer que se enjoasse de mim. Lavar o corpo, desodorizá-lo, apagar todos os vestígios desagradáveis da fisiologia. Levitar. Queria sair do chão, queria me visse suspensa em equilíbrio, elevada, como acontece com as coisas integralmente boas. Eu não saia do banheiro até que desaparecesse o mal cheiro, abria a torneira para que não ouvisse o barulho da urina. Esfregava-me, aparava, lavava o cabelo a cada dois dias. Pensava a beleza como um esforço constante de apagamento da corporalidade. Queria que amasse meu corpo esquecendo o sabor que carregam os corpos. A beleza, eu pensava ansiosamente, é esse esquecimento. Ou talvez não. talvez tenha sido eu que tenha acreditado que o amor dele precisasse daquela minha obsessão." (página 93)




terça-feira, 12 de abril de 2022

Oi
























Oi, sou a Roberta, gosto de falar da vida e sobretudo da poesia dela. Faço poesia porque não sei operar de outra forma.

Fique à vontade para falar de poesia comigo!

Com amor, R